segunda-feira, novembro 25, 2013

QUEM NÃO AMA GUIMARÃES ROSA? VAMOS À FONTE DO AMOR? 10/03/2012



“Amar é querer se abraçar como o pássaro que voa.... Espero a lua nova como o cão espera o dono.... Podia ser um caranguejo ou um coração.... O peixe sem rastro na água sem nenhuma memória.... O esquecimento é voluntária covardia.... Se todo animal inspira sempre ternura, que houve, então, com o homem?....O medo grande que de dia e de noite esvoaça pousa na testa da rês como uma dor.... Também os defeitos dos outros são horríveis espelhos.... A queda do Homem persiste, como a das cachoeiras.... Nós todos viemos do Inferno; alguns ainda estão quentes de lá.... Os santos foram homens que alguma vez acordaram e andaram nos desertos de gelo.... Não ter medo: o mar não se destrói com nenhuma tempestade.... As velhas pedras influem, como os astros; mas só as árvores convivem com a terra impunemente.... A memória nem mesmo sabe andar de costas: o que ela quer é passar a olhar apenas para a diante.... Aviso: as sombras todas se equivalem.... Só as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas.... Que vamos, que vamos, até os ponteiros estão afirmando.... Só na foz do rio é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes.... A água que não teme os abismos: a grande incólume.... O bagre tem sempre as barbas de molho.... Em alguma treva – como os mariscos no rochedo – as almas estarão secretando seus possíveis futuros corpos?

sexta-feira, novembro 22, 2013

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE 22/10/2012

O quintal de minha casa, bem extenso e todo arborizado, perto do rio e desfrutando de subterrânea umidade e não longe de uma siderurgia com seus altos fornos fumegando a irreparável sujidade é um celeiro de pássaros sobreviventes de toda uma região desmatada, ou seja, transformada em carvão para os fornos da rude siderurgia.

Os cantos e vôos sobre a casa e no meio das árvores do quintal e nas folhas que encobrem o chão-viveiro de minhocas. Fico às vezes arremedando em assobios os cantos e piados dos bentivis e sabiás e rolinhas, atraindo a plêiade deles que freqüenta as árvores e mesas de cimento-armado e o chão onde se fartam de frutas, rações e minhocas.

Fico lembrando de minha infância rural, vivendo numa espaçosa casa, com as portas da frente dando para uma rua toda gramada e arborizada e as dos fundos abrindo-se com as janelas para o denso e extenso quintal de múltiplo e diversificado arvoredo.

O pomar na parte de cima, com as bananeiras, laranjeiras e mexeriqueiras, os trinta e cinco robustos e altaneiros pés de jabuticabas, as mangueiras de várias qualidades, os cajueiros, um jambeiro e uma parreira de uvas, as pitangueiras, articunzinhos e ameixeiras, pés de limas, limões e romãs – e dezenas de pés de café, sem falar na enorme área de plantação de milho, abóboras, feijão, favas, quiabos e couves e espaçosos nos lugares destinados ao paiol dos mantimentos, ao galinheiro com os varais de pouso e no chiqueiro para a engorda de capados, além dos porões de nossa casa e da de minha avó paterna, (uma casa colonial imensa e abandonada).

Uma propriedade festiva para a meninada amiga da gente e também para os pássaros e aves servidos de comida com fartura. Foi lá, naquele tempo, que aprendi arremedar os pássaros nos cantares chamando chuva no tempo da seca e sol no tempo das águas. No fundo e ao lado do quintal os valos divisórios, ladeados de farta e altaneira vegetação, esconderijo e vivenda de animais e pássaros estagiando entre a selva e a civilização.

Era bom e útil aprender com os passarinhos os cantos da existência, livre e desprendida, fugaz e constante ao mesmo tempo em todas as horas do dia, desde o romper da madrugada até o escoar da claridade solar, quando a lua e as estrelas do nosso descanso adormeciam a faina vivencial dos seres e das circunstâncias.

A parte do lado de fora da casa, vinha a rua larga e repleta de magníficas magnólias e bilosqueiras: era outro pedaço do pequeno paraíso de nossa terra. Os passarinhos do quintal e da rua voavam, saudáveis, pousavam e cantavam em contínuas revoadas. Fico lembrando das andorinhas, dos sabiás, pássaros-pretos, pardais, rolinhas brancas e escuras, tico-ticos, canarinhos e pintassilgos, curiós, as siriemas, as trocais, os jacus, os urubus, os azulões, acauãs, papagaios, periquitos, maitacas, joão-de-barros, pica-paus, beija-flores e, mais longe dali, no valo do quintal e na capoeira da Fontinha, as juritis e os nhambus, os sanhaços e gaviões, os curiangos, as perdizes, os chamados frangos d’água, os paturis e tantos outros de nomes agora esquecidos.

Lembro-me que, infelizmente, os mais robustos (carnudos) e também os mais canoros era perseguidos, atraídos e presos em laços de barbante, alçapões de bambus, arapucas e visgos por pessoas (adultas e crianças) de maus bofes, como se diz.

Mesmo assim a passarada era uma festa nas redondezas do arraial e não apenas nos fundos de nossa casa. Nas matas adjacentes dos lugares chamados Buracão, Presa, Fonte Grande, Fontinha, Corgo Areiado, Narciso, Lavapés, Volta do Brejo – e também nos capões de mato e nas capoeiras das quinze bandas: em todo lugar da roça a vida era muito natural, ninguém castigava ou destruía a parte animal e vegetal da vida animal, exceto os caçadores, pescadores e açougueiros e também as donas de casas matadeiras de frangos e galinhas.

Depois, anos depois, foi que em nome de um pretendido e contundente desenvolvimento civilizatório que a paisagem está assim desertificando, o solo esterilizando, o ar intumescendo, tudo isso a demarcar o primado da poluição planetária.

Depois dos males veio pior: o êxodo rural e assim os sítios e fazendas viraram chácara de lazer para o repasto dos finais de semana dos comerciantes e industriários e empresários e políticos dos centros urbanos. Tornaram-se meros viveiros de novas riquezas e pobrezas.

Assim como que expulso de meu gostoso e inocente habitat, fui para bem longe, envolvendo-me em outros aprendizados, por critérios de vocação e de necessidade.

Corri mundo, anos a fio, armazenando vivências de estímulos e de aflições. Vi e senti a diferença ente o realismo e a fantasia, ferindo-me mais do que deliciando-me com o que o mundo podia oferecer-me longe da inocência das árvores, das aves, dos animais e das pessoas abençoadas pela poesia da natureza, agora tão mutilada em sua pureza.


Uma transformação que clama aos céus, não?

A POESIA FALA A VERDADE 22/11/2012

Intróito:
O caderno ILUSTRÍSSIMA, suplemento domingueiro do jornal “Folha de São Paulo”, enriquece duas de suas belas páginas na típica homenagem póstuma à Poeta polonesa Wislava Szymborska, Prêmio Nobel de Literatura de 1996.

Leitura de tanto interesse geral que não me contenho em transcrever um dos poemas para repartir o prazer com os leitores.

O poema intitulado COAÇÃO é traduzido por Regina Przybycien. Bom proveito, leitores amigos.

COAÇÃO

“Comemos a vida de outros para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.

Mesmo as melhores pessoas
Precisam morder, digerir algo morto,
Para que seus corações sensíveis
Não parem de bater.

Mesmo os poetas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severos
Mastigam e engolem algo
Que, afinal, ia crescendo.

Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
Talvez ingênuos,
Deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
E ali onde há fome
Finda a inocência.

À fome se juntam logo os sentidos:
O paladar, o olfato, o tato e a visão,
Pois não é indiferente quais iguarias
E em quais pratos

Até a audição participa
No que sucede, pois à mesa
Não raro há conversas alegres.”

Justifico a transcrição considerando que, no meu entender, só ela poderia dizer palavras (em conceitos e imagens) tão abertamente inaceitáveis na prática e verdadeiras no fundo, no meio e na superfície de toda vivência animal, mormente a vivência racional, especificamente humana. E insoluvelmente humana?
 Afinal: não passamos de viventes errôneos?

Pausa para meditação.
Penso que deveríamos ser menos carniceiros e carnívoros, menos pescadores e matadores, mais plantadores e cultivadores e humanos. E menos destruidores...

ESCRITA 12/10/2012

Perguntam-me sobre a minha opção pela literatura.

Respondo que não é opção: é uma imposição.

Ao reconhecer a importância da vida interior, o aprendiz literário assume essa vivência e, em consequência, a tentativa de exprimi-la.

Depois que reconheci e aceitei que tudo na vida e no mundo contém, sobretudo, os valores referentes às expressões da VERDADE e da BELEZA (corpo e alma, alegria e tristeza, suplício e felicidade), assumi os encargos das tentativas de comunicar em linguagem endereçada aos nossos semelhantes, dentro de minhas possibilidades e impossibilidades, as beiradas e meandros dessa arte que é, como já foi dito, o local de encontro de duas almas (a do leitor com a do escritor).

O infinito e difícil trabalho começa na fase de aprendizagem (interminável!) com a leitura dos mestres em prosa e verso - isso não para arremedá-los, mas para tentar superá-los, mesmo sabendo da provável impossibilidade.

É difícil, bem sei. Mas a facilidade nem sempre satisfaz o objetivo.

O escritor é sempre o melhor leitor de si mesmo e de seu trabalho. É necessário ler, ler muito os bons autores e reler, reler muito e corrigir os próprios textos.


TICO-TICO NO FUBÁ 11/10/2012

- Subir é mais fácil do que descer? Pode ser que sim, pode ser que não. Exemplifico: uma criança nos primeiros anos de vida consegue, engatinhando, subir a íngreme escada que vai até ao pavimento de cobertura do apartamento onde reside. Sobe célere, sem problema. Mas descer pela mesma escada ela não consegue, a não ser acidentando-se.

- As duas fases vivenciais dos comunistas brasileiros: nos chamados “anos de chumbo da ditadura militar” eles roubavam bancos em nome do povo. Hoje, no poder, eles roubam o povo em nomes deles mesmos, na contraditória aflição de se tornarem capitalistas. O que estou dizendo foi baseado em trecho de uma carta do leitor Marcos Máximo na edição de 20\10\2011 do jornal “Estado de São Paulo”.

- O atrito inevitável: as pessoas mais idosas não são entendidas pelas mais novas e vice-versa. A diferença etária predomina nos comportamentos de ambas as partes. Os velhos alegam que os novos sentem falta de umas boas palmadas na infância. Os novos acham que os velhos estão caducando, não aceitando o rol de novidades modernosas.

- O vínculo que mantemos com os nossos antepassados é algo proveniente de nosso subconsciente e que modela o nosso caráter, definitivamente. É o principal sintoma de nossa herança genética.

- Michael Shermer, psicólogo americano, em entrevista à revista VEJA, edição de 22\08\2012: “As Igrejas se tornaram um fator de corrupção. Motivo de guerras e perseguições. Por sorte, presenciamos o declínio da crença no sobrenatural. Países do norte europeu, onde apenas um quarto da população segue alguma religião, têm índices de criminalidade, suicídios e doenças sexualmente transmissíveis inferiores aos de estados em que a maioria dos habitantes é de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religião se declara um bastião de bondade, por que historicamente tais estados teocráticos são mais susceptíveis à criminalidade do que os seculares?”

- Nas mais vivas das horas mortas dos dias mais noturnos da atualidade, costumo pensar que meu passado viaja comigo, de avião, para o futuro mais duvidoso desta vida neste mundo. Vejo pela janela da aeronave as nuvens escuras embaixo e o deserto enigmático em cima... Fico sem saber que fim levará meu passado no futuro dessa viagem por enquanto ininterrupta... Pois, como já dizia Millôr Fernandes: “Onde quer que a gente vá, há sempre um passado pela frente”.

- Ainda e sempre a VEJA. Numa edição de outubro de 2011 constata-se que o governo federal brasileiro emprega 90.000 pessoas em cargos de confiança, ou seja, sem concurso e com salário acima do normal.  E a comparação é feita: nos Estados Unidos a quantidade de pessoas detentoras do mesmo tipo de cargo é de 9.051. Na Inglaterra, cerca de apenas 300 pessoas. A explicação da exorbitância da diferenciação: no Brasil os chamados servidores públicos trabalham para os partidos políticos e não para o povo, que é seu verdadeiro patrão.

AS PALAVRAS 11/10/2012


As palavras não correm como os cães que perseguem o automóvel,
Nem estacionam como as buganvílias e os mimos de Vênus
Que enfeitam a cerca de arame farpado.
Elas falam e silenciam.
E aguardam respostas
No silêncio crepuscular dos dias próximos e passados.
Elas esquecem de si mesmas, desaparecendo nos ares.
Ou ficam a dormir e a sonhar eternamente?

DE GRÃO EM GRÃO... 11/10/2012

- O Rio de Janeiro, na opinião de Carlos Heitor Cony: panoramicamente é a cidade mais bonita do mundo. Mas em close é horrível.

- Coincidência de parentesco: em 1934, ano de meu nascimento, foi lançado nos Estados Unidos o filme “A Família Barrett”, e, sem saber disso, publiquei em 2005 o livro de genealogia “Família Oliveira Barreto”. O fundador da cidade de Barretos (SP), Francisco José Barreto, egresso de Minas Gerais, tinha um neto (filho de seu filho José Francisco Barreto) chamado Valentim José Barreto, nascido em 1869, sendo que o nome de meu pai era José Valentim Barreto (nascido em 1878). E segundo os autores do livro “Barretos – Primeiros Povoadores e Fazendas”, Francisco Gabriel Junqueira Machione e Roseli Aparecida Fineli, as duas famílias (a de lá e a de cá) eram frutos da mesma árvore genealógica.

 - Uma contradição em termos? A ditadura militar de 1964-1985 inspirou e revelou os momentos mais musicalmente sensíveis e expressivos daquelas décadas, enriquecendo sobremaneira a popular história de nossa música popular... Já o período posterior, da fase lulista-petista em diante, a nossa música perdeu a leveza do ritmo e a beleza da significação, caindo no marasmo da barulheira. Creio que nada tendo a defender e a combater, a não ser a intenção governamental de perpetuação no poder esse (des)governo nada pode inspirar e revelar de válido culturalmente. As enxurradas e trovoadas dos grupos desocupados só atordoam nossos ouvidos com as ínfimas produções de compositores (?) e cantores (?) e cantoras (?) e musicistas (?) que gritam, esbravejam e esperneiam baboseiras, conspurcando a tradição melódica de nosso cancioneiro criado pela alma do povo através de musicistas do naipe de Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Zequinha de Abreu, Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Morais, Chico Alves, Orlando Silva, Jorge Veiga, Noel Rosa, Maria Bethânia, Silvio Caldas, Linda Batista, Aracy de Almeida, Pixinguinha, Luiz Gonzaga e Dorival Caymi. Ah Saudades!...

 - Ian McEwan, escritor inglês, afirma: “Todos os romances são de espionagem: investigam o que deixamos em segredo, o que resguardamos na intimidade. Em qualquer relacionamento há coisas que escondemos, que não dizemos diretamente. Estamos todos envolvidos no controle das informações”.

 - Dos 180 países que participam da ONU, o Brasil é o único que paga salários aos seus vereadores. Até 1977 apenas os vereadores das capitais dos estados recebiam um modesto valor a título de ajuda de custo. Lembro-me que minha irmã, Maria José, exerceu através de eleições, dois mandatos consecutivos no município de Itapecerica, representando o distrito de Marilândia. Não ganhava um tostão, nem mesmo para pagar as passagens de ônibus nas idas e voltas das mensais reuniões da Câmara. Quando o cargo passou a ser remunerado, ela não resistiu à desenfreada competição dos candidatos que surgiram como que por encanto. Aí ela desistiu de concorrer.

 - Meu Deus, para quê céu? Indagava, atônito, olhando pro céu, o persistente paquerador, ao ver uma beldade atravessar a rua da cidade.

 - Antigamente, nos bons tempos da verdejante vegetação de nosso hoje desmatado Oeste de Minas, o roceiro remediado viajava no lombo de seu cavalo de estimação, todo lampeiro, chegando ao arraial e diante da pergunta: “Como vai, Amigo?”, ele invariavelmente respondia: “Ah, Beleza só. A Bondade vem aí...”. Bons tempos. Depois veio o êxodo rural, pondo fim na Beleza e na Bondade das pessoas então decepcionadas com as novas modas comportamentais.

 - Do filósofo Luc Ferry: “Os homens morriam por Deus, pela Pátria e pelas Revoluções. Essas instituições perderam a importância, e a Família emergiu como a nova Entidade Sagrada do mundo atual. Os filhos são a única razão pela qual vale a pena viver e morrer nos dias de hoje”.

quinta-feira, setembro 20, 2012

AS MESMAS PALAVRAS HUMANAS

Osvaldo André de Mello está de livro novo na praça. Louvai por isso ó amantes dos bons gostos e das boas maneiras que prezam e cultivam os bens da Natureza e da Humanidade: a preservação da flora e da fauna e o inestimável culto do amor humano entre os semelhantes.

Lembro-me de ter afirmado sobre seu primeiro livro “A Palavra Inicial” (edição do Movimento AGORA, Divinópolis, 1969, capa de Waldyr Caetano) que o autor era o portador natural de uma espécie de “inteligência do instinto: uma luz sem razões visíveis”, que iluminavam e refletiam as coisas como se elas viessem “de uma fonte ainda não tombada no patrimônio da razão... com a autoridade de quem conhece a fundo, de quem nem precisa estudar para saber”.

Confirmo o que escrevi sem tirar nem pôr uma palavra sequer. A respeito de seu livro seguinte “Revelação do Acontecimento”, de 1974, a grande e inesquecível poeta Henriqueta Lisboa afirma com toda sua sensibilidade e lucidez:  “o espírito musical” (do trabalho dele, claro) nascido em fluidez, cede à idéia de cristalização no prisma. Assim como se fosse, esta poesia, uma corrente de água a transformar-se em espelho de lago”.

No livro “Ilustrações”, de 1996, ele afirma no poema “Romel Gontijo”, página 13: “O artista é mágico. A voz-pássaro de Yma Sumak, o Bolero de Ravel na música de linhas e cores. Neruda e Lorca, Cecília e Nietzsche nas formas plásticas. O artista é mágico. Não se assuste de ver no papel o cinema de Bunnuel e Glauber Rocha, Fellini e Visconti. Sendo mais, é a pintura de Dali\Gala e Picasso, van Gogh e Paulo Bernardo. O artista é mágico: em suas transparências, as filosofias grega e chinesa. Abre os olhos e devora os movimentos de Isadora e Nijinski. A folhagem-amuleto: comigo-ninguém-pode. O artista é um bruxo. O bruxo e seu talismã: a concha bivalve derrama nos quadros o sumo do mundo”.

Alguém já leu algo mais bonito e certo?, pergunto, leitor contumaz que sou da obra dele e de todos os bons autores de todos os tempos possíveis. Ao longo do tempo ele escreveu e publicou outros livros (além de ajudar muitos autores novos a escrever e publicar muitos e muitos livros – produtor cultural que é por aptidão e condescendência) com a mesma ênfase e qualidade, participou ativamente de toda vida cultural da cidade, dirigindo publicações literárias e teatrais, escrevendo, encenando e estimulando como autor, ator e diretor muitas peças (dramas e comédias), exercendo ainda, em ilibada consciência, dedicação e eficiência, o cargo de Diretor da Secretaria de Cultura, em dois períodos de mandatos governamentais.

Uma personalidade ilustre em todos os bons sentidos, ele é, indiscutivelmente. Agora acaba de publicar o substancioso livro AS MESMAS PALAVRAS (Editora Veredas e Cenários), embelezado e enriquecido com dez belíssimos desenhos do saudoso Petrônio Bax, dileto amigo dele.

O livro é do mesmo naipe, da mesma coerência e burilação dos anteriores, com a virtude de ser um acréscimo de sua instigante poética. Contém os oportunos e relevantes núcleos temáticos: “O Patrimônio Cultural, Eros, A Natureza, A Arte”.

Nada mais preciso acrescentar. Apenas recomendar a leitura a quem gosta do que é bom e espera que os valores estéticos e morais da vida humana prevaleçam sobre as contingências menos felizes.

RESPOSTA DO MACACO (*)

Não sei de onde partiu
O boato que corre em toda parte,
Que o homem descende do macaco:
Besteira igual eu nunca vi.

Não tinha o que fazer
Quem espalhou tal pilhéria.
Quando foi que um de nós deixou
A mulher e os filhos na miséria?

Quem já ouvir falar de um macaco
Que escondeu o coco dos irmãos?
Quem já ouviu falar de um macaco
Que dá o tapa e esconde as mãos?

Outra coisa que nenhum de nós faria:
Sair de casa para de álcool se encharcar,
Ou usar uma arma de ferro ou de fogo,
Para a vida de outro macaco tirar.
Nem pensando faríamos tal disparate.
Todo homem descende de seus avós.
Nunca, nunca descende de nós!

(*) – Paráfrase de um poema folclórico norte-americano.

ESTRELAS DO CINEMA, INESQUECÍVEIS

Barbara Stanwick (nunca o amor foi tão alegre).

Ainda bem não tinha começado a sorrir
E já sorria desde o dia anterior.
E quando acaso o riso findasse,
Ela o acendia na próxima cena.

“Deixa que o amor que já foi chama
Permaneça na brasa”, ela afirma, sorrindo,
Sem jamais capitular.

Deanna Durbin é o quindim da Iaiá.
Ela ainda agora (cinqüenta anos passados)
É a mesma namoradinha das Américas.

Em mim, porém, ela terá mudado?
Eu sim, sei que mudei – e muito.
Ela agora está mais branca que morena?
Mais loura do que branca?
Um sonho juvenil mais ainda?

Conserva uma certa magnitude:
A luz macia sobre as cores vivas...
Ah, bons tempos, os da primeira juventude:
A eternidade pousada num pé de begônias.
É assim que a gente volta ao passado,
Na direção do futuro promissor.

Foi bem ali, no verso sutil da canção,
Que o amor ergueu sua linda face:
Bem ali nas lantejoulas, na linda face De Dorothy Lamour....
Lembro-me que bem ali no cenário
Adredemente enfeitado de lantejoulas,
Ela cospe na cara do bandidão da fita...

Uma graça de contradição:
Uma cuspida na cara, vinda da boca dela,
Não seria o sonho de todo cinéfilo?

LITERATURA – Trechos de Uma Entrevista.

A literatura divinopolitana é muito rica: é nesse aspecto que a cidade nem parece ser do interior, mas uma parte dos grandes centros urbanos.

Além de Adélia Prado e Osvaldo André de Mello, ainda brilham atualmente as talentosas figuras de Marlene Moreira, Fernando Teixeira, Jeanne France, Carlos Antônio Lopes, Mercemiro Silva, Fabrício Augusto e muitos outros. Uma riqueza qualificativa e quantitativa.

Sobre o meu trabalho? É uma longa, custosa e fascinante peregrinação de aprendizagem. Acompanho as gerações e estilos dos autores brasileiros desde a infância, a começar por Casemiro de Abreu, Gonçalves Dias... até os nossos dias, priorizando sempre o conteúdo sobre a forma, sabendo que a forma depende do conteúdo, considerando, também, que o conteúdo sem a forma se esvai no caminho da expressão.

A melhor definição que conheço da Literatura é que ela é o local de encontro de duas almas (individualmente e coletivamente). Sabemos que o ser humano de nossos dias coabita, convive com os outros seres humanos de duzentos ou milhares de anos passados através dos poetas e prosadores gregos, russos e ingleses....

Poesia e Prosa: é a mesma coisa se despertam no leitor a convicção da verdade e da beleza de um humanismo iluminado.

 O nome certo para irmanar um gênero com o outro é a palavra Ficção. Ficção no Aurélio quer dizer imaginação, mas esse termo, no mesmo dicionário, quer dizer tanta coisa que se confunde com a própria vida humana.

Mas a literatura ocupa um espaço ainda mais amplo: abrange o ensaio, a biografia, a história, a crônica, todo o humanismo em palavras (em imagens será arte gráfica).

Já publiquei os livros: Árvore no Telhado, Mel e Veneno, A Cabeça de Ouro do Profeta, Aço Frio de Um Punhal, A Lapinha de Jesus (em parceria com Adélia Prado), Minha Bela e Querida Divinópolis, Memorial de Divinópolis, História de Arcos, Memorial do Desterro e A Família Oliveira Barreto, além de participar de muitas antologias no Brasil e no estrangeiro de contos, poemas, crônicas e ensaios.

Participei da fundação e direção de jornais literários (o AGORA e o DIADORIM) – e colaboro na imprensa local desde a década de 70 – e atualmente mantenho uma coluna semanal no GAZETA DO OESTE.

Mantenho em casa, carinhosamente guardados alguns originais de livros inéditos. O exercício da literatura, eu disse uma vez ao saudoso amigo José Afrânio Duarte, “é um fardo pesado, um cálice amargo. A compensação é subjetiva e surge apenas no momento de convalescência de uma longa angústia.

Mas para quem é vocacionado é muito difícil livrar desse exercício por assim dizer masoquista. Seria pior se engolisse sem digerir, se apenas recalcar os movimentos de vida interior que afloram continuamente através de suas condições inelutáveis de ser e de estar neste velho mundo sem porteiras.

Sobre o romance que está no prelo (CANTAGALO): por que escolhi o tema da prostituição nos anos sessenta numa cidade do interior mineiro? À pergunta que me fazem, respondo: fi-lo (como diria Janio Quadros) porque participei, na juventude de todo o envolvimento social da cidade. Vivia no centro urbano e, mais como espectador do que como personagem, participava dos acontecimentos sociais.

Podia ter escrito um texto meramente jornalístico Mas a vocação literária falou mais alto. Creio que nas páginas do livro pude discorrer livremente nas asas fictícias – e revelar o realismo daquela fase naquele lugar, sem ferir susceptibilidades.

Creio que a literatura é uma das mais liberais das ocupações intelectuais. Nela a face da realidade brilha sob o sol e a lua ao mesmo tempo, movida pela imagem do realismo e o conceito da imaginação.

Não há nada de gratuito nem de invencionice no livro. O que está nas páginas é o mínimo do que realmente acontecia naquele lugar naquela época. Milhares de pessoas testemunharam – e alguém teria que revelar, considerando que os atos das pessoas são da alçada de toda a humanidade. E tanto o escritor como o leitor são integrantes dessa mesma humanidade.

JÓIAS DA CULTURA POPULAR

AS FRASES:
Mais vale um gosto do que um carro de abóboras.
O seguro morreu de velho.
Quem quer vai, quem não quer, pede.
Quem tem telhado de vidro não atire pedra no do vizinho.
Quem não deve não teme.
A violência gera violência – só o amor gera a bondade.
Uma mão lava a outra; as duas lavam o rosto.
Quem fala a verdade não merece castigo.
Criança que não chora não mama.
Fruta na beira da estrada: está verde ou está bichada.
Quando um não quer, dois não brigam.
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.
O bom julgar a si se julga.
Quem fala o que quer, ouve o que não quer.
Bate na cangalha para o burro entender.
Quem planta vento colhe tempestade.
O sabido planta verde para colher maduro.
Quem tem boca vai à Roma.
Duro com duro não faz bom muro.
Em boca fechada não entra mosquito.
A morte não é a pior coisa, é apenas a última.
Quem fala demais dá bom dia a cavalo.
Quem ri por último, ri melhor.
Muito trovão é sinal de pouca chuva.
O que vem de baixo não me atinge.
Tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia se quebra.
É melhor comer um pernil com os amigos do que uma pelanca sozinho.
Quem convida dá banquete.
Um é pouco, dois é bom, três é demais.
O bom cabrito não berra.
Depois da tempestade vem a bonança.
Tem mal que vem para o bem.
A mentira tem pernas curtas.
Conversa fiada não enche barriga.
Quem fala o que não deve ouve o que não quer.
Na cara que mamãe beijou nenhum malandro põe a mão.
Por bem me levam ao inferno; por mal, nem ao céu.
Em mulher não se bate nem com uma flor.
A beleza não põe mesa.
A liberdade de um termina onde começa a do outro.
A dor que machuca é a mesma que ensina.
Pão de pobre não cai com a manteiga para cima.
Alegria do carreiro é ouvir seu carro cantar.
Deus manda o frio conforme o cobertor.

AS TROVAS
Quem tem amor não dorme\ nem de noite nem de dia.\ Fica virando na cama,\ igual peixe na água fria.

Lá no céu três estrelas,\ todas três encarreiradas,\ uma é minha, outra é sua,\ a outra é de minha namorada.

Dizem que a bala mata.\ A bala não mata ninguém. | A bala que mais me mata\ é a dos olhos de meu bem.

O tatu é bicho manso.\ Nunca mordeu em ninguém. Mesmo que queira morder,\ o tatu dentes não tem.

Fui ao mar buscar laranjas,\ frutas que o mar não tem.\ Voltei de lá todo molhado\ pelas ondas que vão e vem.

Lá do céu caiu um cravo\ na sexta-feira da paixão.\ Antes fosse um canivete\ para ferir meu coração.

Sete e sete são catorze,\ com mais sete vinte e um.\ Todo mundo tem seu bem,\ só eu não tenho nenhum.

Tu remoças dia a dia,\ e eu vivo mais alquebrado.\ Dê-me o beijo prometido,\ para eu morrer sossegado. (suspeito que esta trova é do Soares da Cunha).

No enterro da Raimunda,\ foi aquela confusão...\. Pois uma parte de seu corpo\ ficou fora do caixão.

Para matar as saudades,\ em ânsias saí correndo...,\ Mas eu que fui matar saudades,\ de saudades voltei morrendo (de Soares da Cunha?).

A noite é fria e sombria\ aquela em que não te vejo.\ Mas se vens em noite escura,\ vejo a lua em teu beijo. (de um samba de Pixinguinha?).

Tu censuras minha pressa.\ No fundo tu tens razão.\ Quem ama guarda o relógio,\ e consulta o coração. (de um samba-canção de Antônio Maria).

O ESPETO E A BRASA

A história do Brasil, em se tratando do comportamento de seu povo, é negligente, dispersiva, inglória desde o Descobrimento, passando por mal dos erros e pecados em todos seus períodos até irromper na chamada idade moderna, também repleta de manchas e ferimentos.

 Os analistas mais lúcidos lamentam as longas durações das ditaduras de Vargas e dos Militares. Mas o que veio no intervalo de uma e depois da outra não é mais auspicioso nem brilhante.  Estamos sempre indo e vindo de Herodes a Pilatos, como se diz.

Os mandatários atuais execram em nome da esquerda socialista a direita capitalista, sem definir qual das duas fórmulas governamentais é a menos pior. Os esquerdistas em nome do tacão comunista venceram e despojaram os direitistas detentores do capitalismo, outra sigla também repleta de origens e de finalidades execráveis.

A DEMOCRACIA (governo historicamente justo e ilibado) tem ficado, sempre, à margem das estripulias politiqueiras dos aproveitadores de plantão.

Sabemos que, de um modo geral, a democracia tem seus deslizes e defeitos, tem que ser aprimorada e purificada constantemente, como é a vida de deus e de todo mundo. Mas um país entregue aos malandros e trapaceiros, corruptos e criminosos, oh, isso é demais, faz mal às pernas, ao estômago e à cabeça do homem comum, que representa a maioria da população.

Os situacionistas (pessoas que atualmente ocupam os poderes executivos e legislativos) decidem por alta (ou baixa?) recreação que a carga maior de culpabilidade é do regime militar que vigorou nas décadas de 60 a 80.

O erro desse julgamento parte da miopia dos contestadores daquele regime, ou seja, dos terroristas da época, que hoje ocupam e solapam o governo. Eles alegam que salvaram o País da tirania da direita, sem reconhecerem que lutaram e venceram a pugna em nome da tirania da esquerda, ainda pior e tão desmoralizada por onde passara, deixando suas marcas sangrentas.

É uma história muito mal contada de um país que se livrou do espeto e caiu na brasa. Não foi (e nunca poderia ter sido) uma boa troca, a da aderência ideológica e possivelmente executiva aos países comunistas (Rússia, Cuba, Venezuela) em vez da afinidade com os países democráticos (Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha).

O que resultou – a tomada do poder governamental através de engodos e tramoias corruptas – é outra história mal contada (e piormente exercida) de um País que não se engrena no dever de proporcionar o bem estar e a sadia moralidade de todos os habitantes.

O que vemos agora na imprensa falada, visualizada e escrita é a impunidade calamitosa dos criminosos mais hediondos (os lesa-pátria e lesa-povo), virando o lado certo da verdade pelo lado avesso da mentira. Um país em que o exercício da vida humana chega a tal ponto (os criminosos tripudiando os inocentes) seria uma piada de mau gosto se não fosse o diabo a quatro de todos os malefícios.

O Brasil registra 50.000 homicídios por ano – e menos de 10 por cento chegam a ser julgados em tempo útil e necessário... “O direito penal oferece apenas duas opções a um advogado. Na primeira ele se obriga a só aceitar a defesa de um cliente se estiver honestamente convencido de sua inocência. Na segunda, torna-se co-autor do crime” – assim escreve J. R, Guzzo, na revista VEJA, criticando o advogado e ex-ministro do presidente Lula, que cobra 5 milhões de reais para defender o criminoso Carlinhos Cachoeira”.

A deturpação moral e cívica está infestando escandalosamente a própria Justiça, que estaria caminhando no mesmo atoleiro dos poderes legislativo e executivo...

Vade retro, satanás!

ESTRATÉGIAS DA REPRESENTAÇÃO (Mensagem aberta ao crítico literário Mauricio José de Faria, que brindou-me com o livro inédito de titulo em epígrafe, a respeito de meu livro “Aço Frio de Um Punhal"

É a primeira vez que me sinto diante de um espelho sem me ver feio ou paupérrimo, mas sim bem perfilado e lúcido a ponto de reconhecer não o reflexo deformado de certos enfoques apressados ou biliosos, mas sim a nítida transparência de um close retocado e enquadrado nos ângulos criteriosamente estudados.

Uma análise que valoriza o objeto em pauta ao refundir sua concepção e quase recriá-lo no calor da releitura. E de repente o que estava no esquecimento (morto e sepultado?) abre os olhos, airosamente, levanta das páginas como que em novas impressões, ainda a esfregar os olhos e espreguiçando, mas já refeito e apto a encetar novas ações e imaginações.

A necessidade do crítico na literatura reside justamente aí, no afã da incursão e da iluminação do cenário da obra, agora visto de tão perto a ponto de se ouvir o balbuciar e o fluir (penosos ou não, contrafeitos ou não) de sua respiração, como se o crivo da crítica estivesse reescrevendo a obra ao escrever involuntariamente outra obra do mesmo gênero em prosa ou verso que pode ser até melhor do que o da referência.

É o que faz Maurício José de Faria no belo ensaio a respeito de meu “Aço Frio de Um Punhal” (Editora Guanabara, RJ, esgotado). A escritura dele afina tão bem com a leitura empreendida que a correlação escritor\leitor se evidencia a ponto de suprimir a distância geralmente existente nas obras predominantemente acadêmicas, que não é o caso desta.

Tudo acontecendo como se o leitor estivesse escrevendo? Folgo muito de ter em mãos um trabalho de fôlego que é também leve e profundo, arguto e fluente, legível e erudito. Fico muito feliz em merecer (?) o primeiro fruto de uma prospecção apresentada com tanta expressividade, augurando desde já, que persevere no avançamento de um caminho repleto de desníveis e saliências, que leva à paisagem da beleza cognitiva: é só firmar o olhar na caminhada que logo defrontará as esferas e os quadrantes, os campos e as matas, o oxigênio e a orquídea desafiando e aguardando quem deliberadamente aceita o pacto da impregnação eletiva, tácita e espontânea osmose.

Fico feliz em prognosticar que meu livro vai encabeçar uma audaz e numerosa bibliografia do escritor Maurício José de Faria. É desejável e necessário que toda essa gama de potencialidade supere o rol das dificuldades editoriais e possa enfaticamente ascender ao primeiro plano do palco, atualmente tão desfalcado, da crítica da crítica literária brasileira.

O domínio da linguagem, as propensões da argúcia e da escritabilidade legível estão mais que demonstradas e agora é clicar e mover os mecanismos.

E quem sabe ele já não está aí no seu canto de silêncio programado e exercitando os novos trabalhos que preencherão tantas lacunas, desfazendo tantas obscuridades, e que completarão tanto iluminamento numa área literária necessitada de acordar porque o sol já vai indo alto no céu e as pessoas na vida continuam a perder seus bens e dons por falta justamente de quem perfaça o encontro desses bens de um modo mais inteligente e legível?

A leitura do presente ensaio foi entrecortada de airosas e pungentes emoções, porque virava e mexia eu estava lá nos contos, a escrevê-los novamente. E mesmo absorvido no arranjo vocabular do ensaísta, agudamente esculpido no cerne da edificação crítica, eu recobrava outras absorções, principalmente a de que ali se falava de algo meu e não apenas do que me entretinha.

Como o retrato na parede que tanto doía no Drummond. A leitura do texto dele transigia de um ânimo a outro, de um perdido para um recuperado em novas cores e tons, agora distinguindo e aglutinando o que é momentâneo e permanente na vida.

A embaraçosa sensação de se estar ouvindo falar de si de uma forma distante e inesperada, mas tão calorosa, como se estivesse acordando de uma divagação, a se interrogar sobre o que fez, o que disse, a recobrar o ânimo, tal como a folha que se julgava morta e que agora, mesmo arrancada, é novamente ungida de luz e do calor de um velho coração abatido, porém vivaz.

É assim que humildemente ao fim da leitura, bato no peito para tentar saber por que acabo de merecer tanta distinção.

quinta-feira, maio 17, 2012

Buenos Aires Querida

Um passeio familiar (com a esposa, a filha, o netinho e a nora) à capital da Argentina vale como uma renovação de fé no humanismo salutar que ainda sobrevive em muitas das grandes metrópoles do mundo. No Brasil essa beleza humana ainda persiste em muitas cidades litorâneas e de tombamentos no chamado Patrimônio Histórico. Em Buenos Aires a parte antiga, imensa, mantém o tipo de modernidade da época (séculos 19 e 20) em nossos contemporaneíssimos dias. Ou seja, a parte antiga é ao mesmo tempo reconhecidamente moderna. As ruas estreitas ao longo de um aprazível afunilamento na interligação dos prédios diferentes uns dos outros, mas unidos no equilíbrio visual de uma estética de bordado gracioso e perfeitamente esmerado na pintura e limpeza dos adereços neo-clássicos. Todos, por assim dizer, em todas as ruas centrais, mantendo o equilíbrio das dimensões de dez a quinze andares, mais ou menos. As esquinas são pequenas praças e o trânsito bem controlado: os pedestres nos largos passeios, os automóveis em mão única, sem correria e sem barulho e sem acidentes. Muitas ruas são destinadas exclusivamente aos pedestres, todas ladrilhadas em cores, muito limpas: não se vê sequer um toco de cigarro... Um cuidado exemplar da Prefeitura, que não se constata na maioria das cidades brasileiras.
As ruas e praças primam visualmente, ostentam uma espécie de ênfase comercial: as lojas são belíssimas com suas vitrines engalanadas, chamativas. Uma sinfonia de cores, um luxo democrático. Os largos (terrestres e aéreos) espaços das praças perfazem boa parte da grande cidade. O bairro Puerto Madero ao longo de um aterro sobre o rio lembra as docas de Londres. Citamos também como áreas de saudáveis lazeres: a Avenida Lavalle, a Praça 25 de Maio, que abriga a famosa Casa Rosada (palácio presidencial) e os vistosos prédios da Basílica e da Catedral, ambos forjados em estilos rococó e barroco....
E a inesquecível Avenida Nove de Julho, considerada a mais larga do mundo, contendo 22 pistas para automóveis, além de conter as praticáveis passarelas dos pedestres. É comum dizer-se que em Buenos Aires cada esquina “tiene um tango”.
Grande parte da área do bairro Caminito (parte mais antiga da cidade) é ocupada por bares e restaurantes e pistas de dança de tangos a céu aberto, sob o sorridente sol dos turistas de toda parte do mundo. Imprescindível também é passar e contemplar os aparatos do Madeiro, da Recoleta, do Palermo. O requinte na cidade está nas comidas e bebidas, nos toques, timbres, regalias, nos museus e em verdadeiros palácios comerciais. Até os ônibus (coletivos) são enfeitados, elegantes. Uma cidade bem cuidada em seus cantos e recantos, proporcionando o bem estar das pessoas. Sabemos que o bem material bem cuidado atrai o bem espiritual e inspira o próprio desenvolvimento humano. A cidade não possui apenas um centro, mas muitos, cada um com as suas especificidades, a aparência agradável ao lado da serventia humana.
O cemitério é maravilhoso, se assim posso afirmar. Imenso em seus ruados que se multiplicam à esquerda e à direita dos visitantes, que contam até com guias turísticos. Cada sepultura é uma verdadeira obra de arte. De forma que ao que tudo indica está fechado para novos clientes: vagas só para os membros das famílias proprietárias dos túmulos existentes. A arte neo-clássica dos últimos séculos prepondera no traçado e nas fachadas dos prédios interligados sem a menor canseira visual, artisticamente diferenciados nas aparências e levezas das unidades em conjunto. A visita ao Jardim Zoológico foi outro “barato” do passeio. Imenso e faustoso, densamente arborizado, bem servido de água e de redutos para cada espécie animal. Um local de forma e conteúdo que encantaram o avô (eu), o netinho (Paulo), os outros familiares e também a Deus e a todo mundo.

sábado, abril 28, 2012

A Prosa do Poeta Lázaro Barreto

sexta-feira, março 23, 2012

Primeira Infância





O cartão acima (poema visual) adquiriu, depois de três décadas, uma nova significação. A LACTENTE referida “Um pingo d`água na folha do inhame”, Ana Paula, é hoje a mãe do Paulinho (Paulo Barreto Lopasso), queridíssimo por ela e pelo pai Guilherme, pelos avós paternos Fábio e Ana Lúcia, e maternos Lázaro e Inês.

Uma nova fase da vida parece ter nascido para todos, inclusive para os titios Paulo e Layla. Uma criança dotada de todas as virtudes físicas e mentais, uma graça sentimental, um poema em figura de gente, uma criatura que vem confirmar a nossa fé e a nossa afeição à humanidade. A expressão natural da beleza contagiante dele e do amor otimista à própria vida é a mesma que a Mãe inspirava em seus ditosos primeiros anos de infância

“Ninguém pudera tanto
(um Deus nos move),
Nem as palavras criaram tanto ardor”.

- São palavras do poeta Afonso Ávila, que cito, de memória, para completar, emocionalmente, minhas prosaicas palavras.

quinta-feira, março 22, 2012

ELEGIA

A criança abençoa o idoso.
Sabe que não é dele a responsabilidade
Do estado horrível da modernidade
Universal.

A criança abençoa.
O jovem pragueja.
O adulto corrói.

Três estágios que salvam,
Depois condenam
A insípida humanidade.

Quem abençoa é inocente!
Vai depois praguejar?
Vai depois corroer?

domingo, março 18, 2012

O CORPO VALE MAIS DO QUE PESA

O corpo até que pode ter seus defeitos,
Pode sim,
Mas é despido de muitas culpas da mentalidade.
Se as entranhas cerebrais
(onde se maquinam as maldades e bondades)
Possuíssem a mesma inteireza, a mesma beleza
Do sutil pregueado dos lábios,
E da mesma presteza afável das mãos
E da perspicácia delineadora dos olhos,
Ah!
Ninguém defrontaria os insultos e os desaforos,
Nem as maledicências da esquisitice do caráter atrabiliário,
Forjado em ancestrais dissensões humanas dos litigiosos
Embustes fisiológicos revestidos de auras anímicas....

Ele pode ter suas lesões, dores, imperfeições,
Mas não atraca nem amaldiçoa,
Não sai de si para molestar outras pessoas:
É alegre ou triste, feio ou bonito
Em si mesmo e tem vida própria
Sujeita às intempéries do meio ambiental,
Onde sua presença sempre ilumina alguma coisa.

Inocente das culpas individuais, sociais e mundiais,
Sozinho, solerte ou altaneiro em cada individualidade,
Obediente aos mandos e desmandos da mente que bola
E rebola o amor e o ódio das criaturas,
Da simpatia e da idiossincrasia dos conviventes,
Ele às vezes exorbita das peças mais que perfeitas
Da biologia indefectível
E aceita humildemente a subordinação aos poderes,
Presumivelmente mais altos.

sexta-feira, março 16, 2012

RESSONANCIA MAGNÉTICA



(Os encantos do Terror em Edgar Allan Poe)

O espírito cósmico paira no ar
(é todo um sussurro de luz),
Baixa e sobe e torna a pairar
Ao sabor dos ares mansos e bravios
Nas quinze bandas do planeta,
Encarnando e desencarnando e reencarnando
Nos seres vivos de todas as partes,
Insuflando e amortecendo nas partes físicas da alma
As preocupações,
As meditações,
E assim num átimo de encanto e desencanto
Surge o peso mortal das dívidas atávicas
Sobre os nervos e os sonhos dos seres vivos
(humanos, desumanos, sobrehumanos)
Em cima das árvores, debaixo dos telhados,
e no silêncio povoado
De abstrações.

Aí então a folgança lilás do sol desanuviado
Empalidece ao entardecer das matas ciliares,
Dá seu lugar à lua que segue nos caminhos da noite,
Tentando afastar-se dos ocasionais torpedos e ribombos.
As perguntas da ventania não encontram respostas
Na montanha repentinamente estufada.
Logo-logo o assédio das folhas ventiladas
Predominam.
Elas que nascem e crescem na palma da pedreira.
Logo-logo os temores brotam na sola dos pés
Dos viandantes ressabiados....

E é aí que vem à tona a pergunta retórica:
E se a massa do éter que entra pela janela
Pegar fogo de repente?
Quem conseguirá desprender-se dos laços culturais
E ficar sozinho na imensidão da noite?
Só quem, perdido, procura encontrar-se,
Sabendo que os círculos menores dentro dos maiores
Estão sempre iniciando a perpétua dança
Do infinitamente grande dentro do infinitamente pequeno....

sábado, março 10, 2012

RODILHAS DO TEMPO

Andei ausente da cidade por algum tempo e retornei sobrecarregado de afazeres. Só agora estou retornando ao lugar comum das atividades.

E na pilha de livros aguardando leituras, pesquei o “Rodilhas do Tempo”, de Odete Assis Freitas, nascida e vivida em Cercado (hoje Nova Serrana), recomendado preciosamente por Osvaldo Ande de Mello e Paulo Bernardo Vaz, intelectuais e artistas de reconhecido prestígio.

É a história da infância e da juventude da autora dando vida aos assuntos que despertam o atencioso interesse de todo ser humano nascido nas Minas Gerais e vivido nas áreas rurais das então pequenas e bucólicas localidades.

Quem não leria com redobrado prazer as páginas que rememoram com sincera naturalidade o regresso no tempo que passou (e não devia ter passado)? Cito alguns dos temas tratados em concisas, afetuosas, deliciosas páginas: a casa da infância, o galinheiro, o chiqueiro, a horta, a lenha para o fogão, a parreira de uvas, o rêgo d’água, o pomar, os ofícios domésticos de passar as roupas, fazer os doces e as quitandas, o café, a feitura e a serventia do fubá e do sabão preto, a lavação do corpo, das roupas e do objetos de uso familiar, as pessoas amigas e aparentadas, as vendas, a sapataria, o correio, a farmácia, as temporadas dos circos e das touradas, os ciclos das serenatas ao luar, as brincadeiras de teatro e de rua, os bailes caseiros, as novenas noturnas no Mês de Maria, com o foguetório, os leilões, a cantoria, as Coroações de Nossa Senhora, as crenças afetuosas, as fogueiras do lado de fora da igreja e também as de São João e de São Pedro nas roças e fazendas, o mundo encantado da mamãe contadeira de estórias - e a fonte das futuras e melhores saudades...

Quem na vida já experimentou tais vivências sabe como é bom e necessário retornar ao passado de vez em quando, remoçar a personalidade, saudar o que no tempo é sem, mácula ou estigma....

As parcelas aglutinadas da Natureza – o enlace diuturno dos animais com os vegetais e os minerais – estão enfaticamente retratadas em grandiosas miniaturas e aquarelas. Como ela afirma, logo no começo do livro: “testemunhei e protagonizei muitos acontecimentos. Brincava, estudava, trabalhava, sempre interagida com a natureza. A natureza deixava que eu saboreasse toda a sua manifestação”.

Colho aqui alguns respingos das brincadeiras infantis da época e do lugar constantes nas páginas do livro: as brincadeiras de roda com música folclórica, as assombrações, o pique-será, o entretenimento com os luzidios vagalumes (“vagalume Tum-tum: seu pai taqui, sua mãe tali”, a criança com o tição de fogo atraindo o luminoso bichinho voador. O renhido jogo das petecas ao entardecer, o do roda-pião na parte de terra da rua, o jogo das mariquinhas,o pular-corda, os balanços e gangorras, a formação de rodas cantantes, o passar anel, o guisadinho. Tudo na melhor da convivência infantil....

Todos os objetos utilizados nas brincadeiras (bola de pano, petecas, piorras e piãos, vestimentas apropriadas, tudo era feito em casa pelas próprias crianças ou pelos pais e irmãos maiores. Noto, pela leitura das belas páginas, que a modalidade do comportamento infantil e das brincadeiras era, mais ou menos, idêntica em muitos dos quadrantes mineireiros (isso constatei quando, já adulto, fiz uma criteriosa pesquisa sobre a cultura popular de Minas Gerais, que resultou num livro ainda inédito).

As românticas serenatas nas altas noite enluaradas marcavam o espaço da criança diante do da juventude. O som dos violões, cavaquinhos, bandolins e pandeiros entonizando as vozes apaixonadas dos seresteiros, brindava o silêncio da terra e do céu com o repertório dos cantores profissionais Orlando Silva, Francisco Alves e Carlos Galhardo, imitados pelos trovadores locais com a possível perfeição. As estrelas piscavam no céu, a terra orvalhada agradecia a fertilidade do amor universal, ali candidamente representado.

Diante de tantas aquarelas nostálgicas e tocantes, quem da terceira idade como eu, não fica embevecido, possuído de muita ternura e saudade? Quem não fica agradecido ao refinamento rememorativo vivenciado pela autora Odete de Assis Freitas, que tão bem reafirma que o que realmente é bom sobrevive, atravessa os anos e brilha como a lua sempre nova e cheia das paisagens e dos tempos preservados na saudade, ressuscitando, sempre, um bom quinhão da FELICIDADE.

quinta-feira, março 08, 2012

A COMUNHÃO DO RISO


- Já foi dito – não me lembro por quem -: sorri e o mundo sorrirá contigo; chore, e chorará sozinho.
- O pensador cáustico pergunta a si mesmo: o que matou o presidente da república? E prontamente responde: foi a desonestidade. Mas o que vou fazer com este pensamento: escrever e jogar fora?
- Citação de memória fraca: masoquista é o sujeito que gosta de um banho quente toda manhã – e por isso toma um banho bem frio.
- Ao contrário do que muitos pensam, a segunda-feira é o melhor dia da semana. É o que está mais longe da outra segunda-feira.
- O homem americano polui cinco vezes mais que o indiano. Logo, povo desenvolvido não é, consequentemente, povo limpo.
- A escritora Patrícia Melo raciocina em bloco como o escritor Paulo Francis raciocinava. Mas ela se distingue com a graça feminina, o que o guru do Pasquim não poderia fazer. A graça feminina ainda vai salvar a humanidade dos estereótipos desengraçados?
- Adoeceu. Inchada. Chamaram o doutor Machado. Foi-se.
- E para provar a impraticabilidade do onanismo entre os pássaros, o ornitólogo no viveiro, disse: Uma andorinha só não faz, verão.
- Conserve seu sorriso – diz o letreiro dentro do ônibus. As dificuldades são as passageiras.
- Era carpinteiro de cemitério. Seu nome: Armando Cruz de Madeira.
- Oposicionista chapa-branca é um oportunista que não se manca?
- A cama de um bordel de baixa rotatividade é também uma boa conselheira?
- Em se tratando de um político, a mão direita deve ignorar o que a esquerda faz?
- Outra pergunta cretina: quem morde na água quebra a cara?
- E onde andarão as chumbadas leves de antanho?
- Quem conseguirá extrair a raiz quadrada das cebolas?
- O degustador: armado de seu binóculo, da janela mais alta do edifício, vai desnudando, mulher por mulher, a cidade noturna.
- Seu coeficiente de inteligência é excepcional. É míope em terra de daltônicos.
- As mulheres não jogam futebol, mas praticam os melhores lances da arquibancada.
- Na cidade os pernilongos são descomunais, tão grandes que quando pousam nas orelhas dos sanitaristas, elas até balançam.
- Era tão distraído que quando retornou da lua de mel, deixou a mulher em Poços de Caldas.
- O rio da roça viajou muitas léguas para conversar com o rio da cidade. Mas quando chegou perto não aguentou o fedor.
- Nunca um não me doeu, dizia o otimista. Pois quem não me ama, não me merece.
- O futebolista jogava mal, mas era muito educado. Se recebia a bola de um adversário,
retribuía imediatamente.
- Com a mesma displicência o açougueiro cortava o frio com a faca amolada.

VIVER OU MORRER DE RIR?

- Na corrida dos cromossomos o vencedor tem 9 meses de merecido repouso.
- Deus custa fazer um bobo. Mas quando faz diverte muito.
- Últimas palavras de um conformista ao ser atropelado fatalmente por um automóvel que seguia a 120 km.: “Tudo passa neste mundo”.
- Ficou cego de tanto pagar aluguel que custava os olhos da cara.
- A mentira tem pernas curtas e boca larga.
- A Santinha do Pau Oco tem tudo para ser personagem de Faulkner: presbiteriana à mesa e herética (ou erótica) na cama.
- O Desmancha Prazer tem dez manchas onde ninguém pode ver.
- Era um cantor que espantava os próprios males quando cantava.
- O que há de comum entre o escritor e o relógio é que ambos são imprecisos e trabalham de graça.
- Nunca mais levou desaforo para casa depois que descobriu o caminho do bar.
- Sujeito amarrado pro rabo tava ali: por mais que se batesse na cangalha, o burro não entendia.
- O algoz fez tanta cócega na vítima que ela morreu de tanto rir.
- A imaturidade feminina é biológica. Dos seus 100 mil óvulos apenas 450 amadurecem.
- Era realmente um cabeça de Bagre, apesar de ter nascido em Lambari.
- Humorista, Prometeu ria da própria desgraça: acorrentado ao rochedo, os abutres faziam-lhe cócegas no fígado exposto.
- A árvore da vida não dá mais frutos: só serve para quebrar galhos.
- O galanteador e a feminista, vestida de verde, trocam amabilidades:
Ele: “Verde é a cor da Esperança”.
Ela: “O verde nem sempre é capim”.

HUMOR DE ALMANAQUE (adaptação do colunista).

O marido Chiquito escreve uma carta à esposa Chiquita, nos seguintes termos: “Querida esposa: como não consigo falar com você sobre certos assuntos – você se irrita facilmente..., passo-lhe através desta os dados de uma estatística que fiz sobre o nosso insucesso conjugal\sexual durante o último ano. É o seguinte: das 365 tentativas que fiz para seduzi-la, só logramos êxito em 36. Isto por que: - em 17 vezes podíamos despertar sua irmã, que dormia no quarto ao lado; em 15 vezes você alegou que fazia muito calor e que suava em todos os poros; em 8 vezes fazia tanto frio que nenhum estímulo surtia efeito; em 52 vezes você alegava cansaço e indisposição; em 23 vezes você adiantava o relógio para alegar que estava muito tarde; em 26 vezes você argumentou que estava “naqueles dias”; em 69 vezes você estava dormindo que nem uma pedra; em 9 vezes você não suportava os ruídos que a cama fazia; em 6 vezes você culpava uma terrível dor de cabeça; em 2 vezes a sua dor era de dentes; em outras 2 vezes você rezava e não largava o terço para nada; em 10 vezes você alegava ter jantado muito e que podia fazer mal; em 32 vezes você estava brigada comigo; em 17 vezes você queria, dramaticamente, brigar comigo; em 12 vezes eu é que queria brigar com você; em 7 vezes você não queria perder o filme da sessão coruja.

Mas o êxito das restantes 36 vezes não foi completo por que: em 11 vezes você disse que eu não tinha tomado banho direito; em 10 vezes você me desestimulou ao constatar que o teto do quarto precisava de uma nova pintura; em 2 vezes você reclamou que eu estava muito afoito; em outras 2 vezes apareceu na tela da TV a figura deprimente de um político bilioso e ladravaz; em 6 vezes tive que acordá-la para dizer que desistia da intenção; em outras 6 vezes pensei que a tinha machucado, pois você dava sinal de vida.

É o que tinha a dizer, minha querida. Não me leve a mal e... beijinho-beijinho, já que deve, nesta altura, estar Xuxa da vida. Seu (eu disse seu?) Chiquito.

terça-feira, março 06, 2012

O RISO NÃO PAGA IMPOSTO



- Era um cantor que espantava os próprios males, quando cantava.
- Escrevia tanto e tão mal que o digitador, mesmo zangado, bocejava.
- O juiz de futebol morreu esmagado por uma pedra noventa.
- A esperança dos covardes, dos corruptos e dos medíocres é que se dê um fim nos corajosos, nos íntegros e nos inteligentes.
- O silêncio de ouro: esse só os ricos compram.
- O bêbado noturno, deitado na grama da rua, apaga a luz da lua e dorme com os anjos.
- Esse cara é normal, dizem. Mas manca das duas pernas.
- Quando convidou a religiosa para queimar incenso no altar de Eros, levou um bofetão. Ela se chamava Elvira, mas não era Pagã.
- Quando São Pedro arrasta as cadeiras no céu, os desabrigados na terra dançam.
- O slogan de Bakunin “destruição é também criação” foi plagiado do dito de uma criança ao ver destruir uma casa: “Olha, papai, estão construindo um terreno ali”.
- Yeats, poeta inglês, afirmou: “das nossas desavenças com os outros, fazemos retórica; das desavenças que temos conosco, fazemos poesia”.
- A maior diferença entre a tecnologia e a mediocridade é que a última está mais ao alcance de todos.
- Quem é precavido come a lata e joga o conteúdo fora. A lata de sardinha.
- Escrevia à máquina porque não sabia o alfabeto de cor.
- A idade média dos favelados continua sendo a idade das trevas.
- A Disneylândia é uma selva tão civilizadinha que os leões dispõem de manicures, dentistas e barbeiros.
- O professor mulherengo ilustrava as aulas com recortes de revistas femininas.
- Os escritos dos autores modernistas da Semana de 22 não seriam como as balas de calibre 22: inócuas de perto e mortais à distância?
- O uso do cachimbo não faz a boca porca?
- O papel do jornal financiado pelo governo não serve apenas para embrulhar verduras?
- Ela é linda de morrer: é assim que os agonizantes dizem da morte?
- Era dado a trocadilhos infames. Morreu com uma palavra atravessada na garganta.
- Aquele atacante do time tinha o pé tão torto que não acertava nem a linha de fundo.
- Quem chora da testa para cima ri de orelha a orelha?
- Hollywood, antiga usina dos sonhos românticos de todo o mundo, agora só fornece energia aos repetidores de tevê.
- Deus foi sábio e justo em fazer o escritor Carlyle casar com a senhora Carlyle. Assim, em vez de fazer quatro pessoas infelizes, fez apenas duas.
- O Flávio Cavalcanti tinha fama de cabeça de toucinho. Já o Silvio Santos é um osso duro de roer.
- O sádico e o masoquista: enquanto um mata de raiva, o outro enterra de prazer.
- Segundo Ezra Pound quem fez a primeira cadeira é um inventor; quem fez a segunda é um mestre. E quem sentou na terceira é um diluidor.
- No mundo dos espetáculos, sempre que uma estrela cai, um astro cai em cima.
- No Brasil não há outono. Mas as árvores caem.
-Paulatino? É o nosso.
- Beaumarchais, quando disse que o que é muito tolo para ser dito pode ser cantado, estava profetizando o surto interminável dessa barulheira que a juventude eufemística chama de som legal.
- Afinal de contas o celibatário é muito sabido. Não tendo uma, tem todas as mulheres ao seu alcance.
- Distraído o estafeta entregou o destinatário ao remetente.
- Os sonhos da bela adormecida no bosque com o monstro da lagoa negra faziam a branca de neve corar.
- Sentiu a vontade indômita de olhar para trás. Acabava de passar por uma dona de rosto lindo.
- Com a atual amplitude dos horizontes do conhecimento, as pessoas ficaram mais ignorantes? A impressão que se tem é que estão sempre exprimidas entre aspas, parêntesis e paredes.
- André Malraux cunhou uma frase que assenta como um chapéu na cabeça dos políticos e novos ricos brasileiros: “O contrário da humilhação é a dignidade”.

O RISO NÃO PAGA IMPOSTO - Lázaro Barreto.

- Era um cantor que espantava os próprios males, quando cantava.
- Escrevia tanto e tão mal que o digitador, mesmo zangado, bocejava.
- O juiz de futebol morreu esmagado por uma pedra noventa.
- A esperança dos covardes, dos corruptos e dos medíocres é que se dê um fim nos corajosos, nos íntegros e nos inteligentes.
- O silêncio de ouro: esse só os ricos compram.
- O bêbado noturno, deitado na grama da rua, apaga a luz da lua e dorme com os anjos.
- Esse cara é normal, dizem. Mas manca das duas pernas.
- Quando convidou a religiosa para queimar incenso no altar de Eros, levou um bofetão. Ela se chamava Elvira, mas não era Pagã.
- Quando São Pedro arrasta as cadeiras no céu, os desabrigados na terra dançam.
- O slogan de Bakunin “destruição é também criação” foi plagiado do dito de uma criança ao ver destruir uma casa: “Olha, papai, estão construindo um terreno ali”.
- Yeats, poeta inglês, afirmou: “das nossas desavenças com os outros, fazemos retórica; das desavenças que temos conosco, fazemos poesia”.
- A maior diferença entre a tecnologia e a mediocridade é que a última está mais ao alcance de todos.
- Quem é precavido come a lata e joga o conteúdo fora. A lata de sardinha.
- Escrevia à máquina porque não sabia o alfabeto de cor.
- A idade média dos favelados continua sendo a idade das trevas.
- A Disneylândia é uma selva tão civilizadinha que os leões dispõem de manicures, dentistas e barbeiros.
- O professor mulherengo ilustrava as aulas com recortes de revistas femininas.
- Os escritos dos autores modernistas da Semana de 22 não seriam como as balas de calibre 22: inócuas de perto e mortais à distância?
- O uso do cachimbo não faz a boca porca?
- O papel do jornal financiado pelo governo não serve apenas para embrulhar verduras?
- Ela é linda de morrer: é assim que os agonizantes dizem da morte?
- Era dado a trocadilhos infames. Morreu com uma palavra atravessada na garganta.
- Aquele atacante do time tinha o pé tão torto que não acertava nem a linha de fundo.
- Quem chora da testa para cima ri de orelha a orelha?
- Hollywood, antiga usina dos sonhos românticos de todo o mundo, agora só fornece energia aos repetidores de tevê.
- Deus foi sábio e justo em fazer o escritor Carlyle casar com a senhora Carlyle. Assim, em vez de fazer quatro pessoas infelizes, fez apenas duas.
- O Flávio Cavalcanti tinha fama de cabeça de toucinho. Já o Silvio Santos é um osso duro de roer.
- O sádico e o masoquista: enquanto um mata de raiva, o outro enterra de prazer.
- Segundo Ezra Pound quem fez a primeira cadeira é um inventor; quem fez a segunda é um mestre. E quem sentou na terceira é um diluidor.
- No mundo dos espetáculos, sempre que uma estrela cai, um astro cai em cima.
- No Brasil não há outono. Mas as árvores caem.
-Paulatino? É o nosso.
- Beaumarchais, quando disse que o que é muito tolo para ser dito pode ser cantado, estava profetizando o surto interminável dessa barulheira que a juventude eufemística chama de som legal.
- Afinal de contas o celibatário é muito sabido. Não tendo uma, tem todas as mulheres ao seu alcance.
- Distraído o estafeta entregou o destinatário ao remetente.
- Os sonhos da bela adormecida no bosque com o monstro da lagoa negra faziam a branca de neve corar.
- Sentiu a vontade indômita de olhar para trás. Acabava de passar por uma dona de rosto lindo.
- Com a atual amplitude dos horizontes do conhecimento, as pessoas ficaram mais ignorantes? A impressão que se tem é que estão sempre exprimidas entre aspas, parêntesis e paredes.
- André Malraux cunhou uma frase que assenta como um chapéu na cabeça dos políticos e novos ricos brasileiros: “O contrário da humilhação é a dignidade”.

ELE E ELA – A CORDA E A CAÇAMBA (*) – Lázaro Barreto.

“A castidade da mulher é um terçol no olho do Diabo” (Provérbio Árabe).
- As mulheres se admiram como um homem que estaciona o carro em uma vaga apertada, só olhando pelo retrovisor, e não sabe onde fica o ponto G.
-Homens e mulheres não são idênticos biologicamente, mas moralmente têm os mesmos direitos.
-Os homens geralmente mais altos; as mulheres, mais miúdas. Mas a visão periférica da mulher é maior.
- A imagem pornográfica burla a percepção estética e abraça e beija diretamente a percepção libidinal.
- Seios, lábios, vulva, bunda, coxas, mãos, pés, umbigo, axilas, etc., são as representações significativas de palavras como sensualidade, tesão, lascívia, volúpia, erotismo, libido, prazer, sexualidade: e são, por assim dizer, as melhores partes da natureza humana.
- Os homens são responsáveis por 96% dos arrombamentos e 88% dos assassinatos.
- O testosterona, hormônio que o homem tem 10 a 20 vezes mais do que a mulher, é o principal responsável pela configuração do cérebro do feto.
- O padrão básico de formação do corpo e do cérebro do feto da espécie humana é feminino. Os mamilos no homem, sem funções; as glândulas mamárias que não funcionam. Quando há má distribuição de hormônio no feto, a criança pode nascer predisposta às inversões sexuais.
- O homossexualismo é inato – e para cada lésbica existem 8 a 10 homens gays.
- Se o feto é geneticamente feminino (xx), mas o cérebro recebe hormônio masculino, o resultado é um corpo de mulher com estrutura cerebral de homem.
- O hipotálamo é a parte do cérebro que agasalha o centro do sexo e que controla as emoções, as batidas do coração e a pressão sanguínea.
- O impulso sexual da mulher é menor porque tem menos testosterona. Seu intercurso sexual é mais prolongado para criar um filho e outro, enquanto que isso nunca existe para o homem, que pode conceber centenas de filhos no mesmo ano.
- O sexo aumenta o nível de testosterona, fortifica ossos, músculos e produz o colesterol benéfico. Mais sexo é igual a menos estresse e vida mais longa.
- A espécie humana não é monogâmica por natureza. O homem tinha que aumentar a população. A mulher tinha seu período de abstenção. Para ficar com uma só mulher, o homem tem que travar uma batalha constante consigo mesmo.
- A mariposa era atraída pela lua, tudo bem. Veio a lâmpada elétrica para atraí-la – e assim ela morre incinerada.
- O galo pode trepar até 60 vezes por dia. Mas com a mesma galinha, o máximo que consegue é 5 (cinco) vezes. Assim também os touros, os carneiros, os homens.
- A mulher quer o homem parrudo e doce, ou seja, que seja ao mesmo tempo machão e bicha.
- O homem quer primeiro o sexo e depois o sentimento. A mulher quer, primeiro, o sentimento e depois o sexo.

(*) compilação aleatória até a página 187 do livro “Por Que os Homens....”, de Bárbara Pease,

sexta-feira, março 02, 2012

VOTO DE ALCEU AMOROSO LIMA (Tristão de Ataíde).

Membro da Comissão Julgadora do Concurso de Contos e Novelas do “Prêmio Afonso Arinos”.

a) “José Afrânio Moreira Duarte é um intimista de cores e alusões sutis, que se revela nestes seus novos contos um mestre na psicologia dos entretons literários”.

b) “Por sua vez, Lázaro Barreto, com “A Cabeça de Ouro do Profeta”, dentro da linha fantástica do realismo mágico que vai de Edgar Poe a Júlio Cortázar e Clarice Lispector, se mostra um contista de grande originalidade, forte e sugestivo, que honra o jovem grupo de Divinópolis, como houve, nas origens do Modernismo, o grupo de Cataguases”

Rio de Janeiro, 1969. O livro foi publicado no ano seguinte, em Belo Horizonte, pela Imprensa Oficial.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

GOTAS DE ÁGUA NAS FOLHAS DO INHAME - Lázaro Barreto.

1 – Enquanto a maioria da população das grandes cidades brasileiras for constituída de cidadãos (pessoas normais) e não de marginais (pessoas anormais), as vias públicas serão normalmente transitáveis por deus e todo o mundo, como se diz. Quando tal liberdade de ir e vir deixar de existir – o que já acontece em muitas cidades – as pessoas normais ficam impedidas de transitar livremente nas artérias públicas, sob pena de serem atacadas e feridas moral e fisicamente. E assim, paradoxalmente, os inocentes ficam confinados e os pecadores libertados.

2 – Conheço uma casa na cidade, de amplo quintal cultivado de árvores frutíferas, inclusive três enormes pés de mangas chamadas de Coquinha, Espada e Rosa. Outro dia um visitante entusiamado verificava (chupando as frutas) qual delas seria melhor do que as outras. Experimentou a Espada e deu a nota: “é a melhor do mundo, tem gosto de infância na roça”. Depois, debaixo do pé da Coquinhas, ao chupar uma delas, bem madurinha: “esta é ainda melhor, é única no gênero, incomparável na doçura do tecido que fica entre a casca e o caroço”. Depois, sob a sombra da enorme árvore da Manga Rosa, ele complicou ainda mais o sentido de seus julgamentos: “esta, mal-comparando tem o gosto dos beijos de minha primeira namorada que, por coincidência, ostentava o lindo nome de Rosa dos Anjos...: esta é a melhor de todas, pode escrever aí em seu caderno de poesia”.

3 – É inadmissível, segundo Roberto Civita, que um país continental como o Brasil “continue sendo administrado por caciques políticos sem preparo, competência ou conhecimento específico, muito mais empenhados em fortalecer suas máquinas partidárias para a próxima eleição do que preparar o País para a próxima geração”.

4 – “A felicidade humana não faz parte dos planos do Criador” – Freud falou e escreveu.

5 – Numa sociedade historicamente machista como a nossa a emancipação feminina nunca é tacitamente aceita nem será definitivamente resolvida. As mulheres que se acautelem, que façam e aconteçam nas áreas historicamente encampadas pelos homens:
política, justiça, administração, liderança, o trabalho leve e pesado em todas as áreas necessárias ao encaminhamento da paz e da felicidade sociais. A igualdade ainda depende da solução de muitos problemas, excetuando, é claro, os eventuais problemas das desigualdades da natureza humana. Mas, nesse caso, viva a desigualdade!

6 – Ainda há muita divindade em Israel. O fragmento que segue foi possibilitado depois de ver as imagens de um e-mail remetido pela amiga Rita de Cássia Pereira da Silva, a quem muito agradeço. Ainda se vê pelos campos e ruas as figuras emblemáticas de Raquel e Jacob, de Rute e Débora, de David e Betzabá, de Jesus e Maria Madalena, de Maria e José! Os muros, alicerces e oásis ainda estão intactos? O Jardim das Oliveiras ainda florido? O Calvário de Gólgota ainda na encruzilhada dos caminhos? E o Sinédrio das agruras e da paixão? E os indícios da ressurreição? E a prevalência do amor ao próximo, nos semblantes dos seres vivos? Ainda se vê o sinal da mão divina ao longo do que se vê: a velha terra arenosa prenhe de vigorosas raízes, o sol e a neve temperando as aclimatações, os templos e o Templo de Jerusalém! Ainda se ouve a súplica das pessoas de bem: que o Senhor aplaque a ira de Caim e Abel; que amenize as refregas e suprima os holocaustos; que a menção profética dos patriarcas e das matriarcas transpareçam nas ações das Doze Tribos abençoadas e também nas profecias e pregações de João Batista e dos Apóstolos, perpetuando os sentimentos e as mentalizações das pessoas; que a coligação dos Testamentos inspire e acione as súplicas pelas boas graças caindo em solo fértil no esforço universal da bela e veraz comunhão dos bens celestiais, ainda agora e sempre tornados terrenos e cotidianos.

7 – Aos prezados leitores que solicitam sugestões para o bom exercício das artes poéticas, só tenho a dizer o que sempre digo a mim mesmo: evite poemas de circunstância e de encomenda. Escreva apenas o que acredita que ainda não foi escrito. A vida é um problema, sem o poema inédito. A sombra esconde a luz no emaranhado das palavras, suscita mais atenção do poeta para o que está interdito e inédito. Os dias e os lugares são as páginas em branco, onde os seres e as coisas desaparecidas anseiam reaparecer.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

FREUD, AINDA E SEMPRE - Compilação de Lázaro Barreto do livro “FREUD – Uma Vida Para o Nosso Tempo” - Edit. Cia das Letras, SP, 1989).

Página 53: “Preocupava-se com todos os beijos que não podia lhe dar, por estar tão distante. Numa carta, justificou seu vício pelos charutos, atribuindo-o à ausência da noiva: fumar é indispensável se não se tem nada para beijar”.
Páginas 68: “uma ponta de verdade se esconde por trás de toda sandice popular”.
Páginas 73 e 74: “pode-se assumir como sabido que a neurastemia é uma conseqüência freqüente de uma vida sexual anormal”. Ele sabia da existência de uma tendência hereditária, mas a neurastemia adquirida tem motivações sexuais.
Página 113: “Os sonhos traumáticos, que evocam acidentes recentes ou traumas infantis...: eles também cabem na teoria do sonho como realização de desejos, na medida em que encarnam o desejo de dominar o trauma, elaborando-o”. Na página 133, a citação de uma quadra do poeta Arthur Schuitzebr: “Sonhos são anseios desprovidos de coragem\ Desejos insolentes que a luz do dia\ Encurrala no canto de nossa alma\ E dali, apenas à noite ousam rastejar”.

Na página 131 consta: “Temeroso de paixões desenfreadas, o mundo considerou necessário, durante toda a história de que se tem registro, rotular os mais insistentes impulsos humanos de mal -educados, imorais, ímpios”. Na página 146 consta: “todos os seres humanos são inatamente perversos; os neuróticos, cujos sintomas constituem uma espécie de contraparte negativa das perversões, apenas expõem essa disposição primitiva universal de modo mais enfático do que as pessoas “normais”.... “A aptidão para tal perversidade é inata”, ele acrescenta na pág. 148. Para amenizar a opinião freudiana, Peter Gay acrescenta: “a generosa concepção da libido, sustentada por Freud, converteu-o num democrata psicológico: como todos os seres humanos participam da vida erótica, todos os homens e mulheres são irmãos e irmãs por baixo de seus uniformes culturais”. Na pág. 162: “Em seu artigo sobre a moral sexual civilizada, ele observou que a civilização moderna faz exigências extraordinárias à capacidade de contenção sexual; requer que a pessoa abstenha de relações até o casamento e,a seguir, restrinja sua atividade sexual a uma única parceira. A maioria dos seres humanos, pensava Freud, acha impossível obedecer a tais exigências, ou obedecem-nas a um custo emocional exorbitante.

Pagina 193: “Jung contestava Freud? Não. A única maneira legítima de contestar Freud é reproduzir seu trabalho. Caso contrário “não se deveria julgar Freud, pois não está-se agindo como aqueles famosos cientistas que se recusavam a olhar pelo telescópio de Galileu.... Para ele a religião era uma necessidade psicológica projetada na cultura: o sentimento de desamparo infantil remanescente no adulto, deveria ser antes analisado do que admirado”. Pág.243: “uma neurose nunca diz nada de tolo, como tampouco um sonho. Sempre repreendemos, quando não entendemos. A psicanálise é a arte e a ciência de escutar pacientemente”. Pag.272: “Durante a fase edipiana surge a experimentação e a instrução no domínio do amor, quando a ternura sem paixão é amizade e a paixão sem ternura é luxúria. É preciso harmonizar essas duas correntes”.

Pág. 275: “A vida sexual não se resume no coito, mas estende-se a domínio muito mais amplo e diferenciado de sentimentos conscientes e impulsos inconscientes”. Página 282: “O tratamento psicanalítico está fundado na honestidade”. Pg. 287: “Ao brincar, a criança leva as coisas muito a sério, mas sabe que o que está fazendo é uma invenção. O oposto da brincadeira não é a seriedade, mas a realidade”. Pág. 288: “de muito tempo para cá, o que tem sido decisivo não é a beleza física de uma moça, mas antes a impressão de sua personalidade.... O que os rapazes razoáveis procuram numa mulher: temperamento meigo, jovialidade e a capacidade de tornar a vida mais agradável e fácil para eles”. Pag.307: “A morte do pai e a conquista da mãe: assim, oprimidos pela culpa, os filhos instauraram os “tabus fundamentais do totemismo, que deviam corresponder exatamente aos dois desejos reprimidos do Complexo de Édipo. Ao se tornarem culpados e reconhecerem sua culpa, eles criaram a civilização. Toda sociedade humana está construída sobre a cumplicidade num grande crime”.

Recomendo a leitura de ”ÉDIPO REI”, a imortal tragédia de Sófocles.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012


O CASARÃO QUE MUDOU DE LUGAR - Lázaro Barreto.

O casarão do meu bisavô paterno, imponente e faustoso, era, na minha infância do Desterro, uma das edificações remanescentes da época áurea do colonialismo brasileiro. Construído sobre um alicerce de três metros de altura, exibindo na frente e nos fundos uma escadaria cimentada de muitos lances, de tal maneira que propiciava um espaçoso porão que servia de senzala para abrigar dezenas de escravos de ambos os sexos. A escravidão, na época, era o braço movido pela vontade dos proprietários. Os escravos cuidavam do curral, do chiqueiro e da manga dos porcos, dos pastos e roças e da provisão de mantimentos e madeiras e lenhas de serventia de tapumes e fogões de cozinha. Sabe-se hoje, em estudos de pesquisa científica, que naquela época os escravos não eram tratados humanamente, mas como reles autores de mão de obra a serviço da classe dos proprietários rurais e dos grandes e pequenos comerciantes das vilas e arraiais. Eram vendidos e comprados em todas as oportunidades e necessidades a preço
muito alto. Mesmo assim a classe pobre dos brancos não renunciava ao direito de possuir um serviçal para toda obra, em qualquer circunstância, com as a obrigações, inclusive, de carregar, descarregar e lavar os urinóis dos familiares da casa e higienizar as latrinas e banheiros nas residências dos mais abastados. Assim sendo o escravo de um pessoa rica sofria menos do que o das pessoas pobres. Essas quotizavam-se para comprar um escravo, o qual passava a servir a dois, três, quatro proprietários na proporção de tantas horas por dia para cada um. Assim o pobre coitado trabalhava dia e noite em três, quatro, cinco casas, carregando lenha e água, lavando roupa, limpando tudo e fazendo tudo que cada um de seus donos mandasse.

O casarão e seus pavimentos e seus adereços: mobiliário importado, juntamente com os relógios de paredes, as imagens sacras, os castiçais, lampiões e lamparinas, as camas de dosséis, cadeiras de palhinhas, prataria e talheres de porcelana e cobre, os pisos em mosaicos nas paredes e alpendres, os fogões de ferro fundido, alimentados de lenha e carvão, com as chaminés enfumaçadas, e outros requintes da residência aristocrática. As mulheres em suas sedas, linhos e cetins, colares e anéis e sandálias de luxo; os homens com suas botinas, brins e casimiras, chapéus e relógios de algibeiras.

O terreno conexo ao casarão começava depois da escada que chegava ao terreiro e às áreas de secar café, feijão e arroz , ladeadas por bicas de água potável – e à certa distância os paióis, o galinheiro, o curral, o chiqueiro e a manga dos porcos. Tudo isso num dos lados do quintal; no outro lado frutificavam as árvores de mangas, laranjas, goiabas, bananas, ameixas, uvas, abacates, cajus, jabuticabas e outras espécies. Depois dessa demarcação começavam os terrenos das capoeiras (nascentes das águas) e das pastagens, a sumir de vista. O dono era, então, poderoso e rico.

Passou o tempo, levando a vida das pessoas, modificando os usos e costumes, trazendo as novidades e o aumento da população mais pobre. Lembro-me, ainda em criança, da época do casarão em processo de decadência, alugado a um casal sem filhos, egresso da civilização: ele um perito em vários ofícios: relojoeiro, sapateiro, ferreiro, barbeiro; e ela, fogosa e bonita, apenas cuidava da casa, com uma particularidade: não usava roupa de baixo – e assim fazia a festa sexual da meninada masculina que, com a desculpa de caçar biloscas e frutas no quintal, adentrava a área do porão e de lá, cada um mais embevecido que o outro, ficava debaixo das gretas do soalho, namorando as “partes” da mulher, andando no meio das inumeráveis frinchas da parte de cima do tabuado.

Assim passava o tempo, até que um dia, chegou um bitelo de um caminhão procedente da cidade de ITU, estado de São Paulo, com um senhor identificado como o novo dono do casarão (isso muito depois do falecimento de meu bisavô). Ele e seus ajudantes tiraram fotografias de toda a casa, parte exterior e interior e telhado, nos mínimos detalhes, incluindo toda a parafernália de quadros, esculturas e objetos de serventia. Fotografaram toda a edificação e logo começaram, jeitosamente, a retirar todo o material (pedras, tijolos, madeiras, telhas e tudo que ainda restava no prédio) e acomodá-lo na enorme carroceria do caminhão. Concluído o enorme trabalho o caminhão partiu na direção da cidade paulista , onde, o comprador (segundo as palavras dele) ia remontar o casarão, tal como era na origem. Estive outro dia lá na grande e bela cidade paulista, para ver se encontrava a casa transplantada, mas não consegui. A cidade é enorme, some de vista. Mas conserva elegantemente muitas edificações em estilo colonial. Voltei encantado com a cidade, mas sem encontrar o que procurava com tanta saudade.

A VIDA HUMANA - Lázaro Barreto.

Se estou vivo,
Das duas alternativas, uma:
Saudável ou doentio.
Se estou saudável, tudo bem.
A rotina vital transcorre pelas vias previstas
(Os eventuais embaraços são logo ultrapassados).
Se estou perrengue, tudo mal
(a vida hesita quanto aos rumos a tomar,
Fica dependendo de meus órgãos físicos e mentais,
Repletos de pontos de interrogação).

Assim é,
Sem tirar uma vírgula.
Estarei sempre na mão e na contramão
Das vicissitudes.
Haja perspicácia e paciência.
Pois é assim mesmo.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

UMA FAMÍLIA, COMO EXPLICAR? - Lázaro Barreto (*).

“Onde quer que a gente vá”, como diz o Millôr Fernandes (quê falta ele faz no jornalismo brasileiro atual!), “há sempre um passado pela frente”. A Genealogia – viagem da família no tempo através do sangue – desenha uma árvore que cresce e multiplica, apesar das folhas e galhos que secam e caem, cortadas pelo destino, violento ou não. É uma atividade lúdica que vai formando a chamada árvore genealógica da família, com suas imagens: as raízes, o tronco, os galhos, os ramos, as folhas, as flores, as frutas, em suas formações verticais e horizontais, através da proliferação de um pequeno núcleo (uma casa que logo se transforma em rua, bairro, cidade) do casal com os filhos, do qual brotam e encompridam-se os galhos paralelos (tios, sobrinhos, primos) e verticais (avós, bisavós, trisavós; netos, bisnetos, trinetos). Uma árvore frondosa ou esquálida que cresce ou estaciona ou míngua conforme as qualidades e condições das sementes, do terreno e do trabalho cultural.

A contemplação da imagem é sempre agradável à vista e ao coração: os elementos consangüíneos acasalados aos de afinidades resultam numa espécie de homogeneidade na heterogeneidade, na fusão por assim dizer multiplicadora, da qual os sinais gráficos se dispersam na mistura mas não se perdem. É assim que depois de cem, duzentos anos, um pentaneto pós-moderno pode ter os mesmos traços físicos e o mesmo nome do pentavô setecentista, apesar das sucessivas bipartições cromossônicas. O quadro, mesmo visto à distância, é aprazível e pertinente, indutor de variadas e contraditórias interpretações: pode dar a impressão de uma aquarela verde-rosa de rebentos bem formados na estruturação psicofísica ou suscitar dúvidas quanto à perícia do desenhista de revelar a verdade que transcende às aparências. Uma família é um barco nas águas marítimas, que balança ou plaina de acordo com o tempo. A família é a família e sua circunstância, como diria Santayana. Só é inteira se estiver contextualizada em si mesma, na afinidade de seus membros, e no meio social em que vive.

A contigüidade territorial une as pessoas num sentido semelhante ao do parentesco, sem as peias e a hierarquização, numa dimensão de maior independência e familiaridade, apesar de menos sólida. É o produto da chamada horda não-diferenciada da morfologia social de Jay Rumney, uma tendência demográfica dos novos tempos. Carlos Drummond de Andrade exprime em versos o condicionamento paisagem\família:
“Alguns anos vivi em Itabira,
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso ou triste, orgulhoso, de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas,
Noventa por cento de ferro nas almas.
E esse alheiamento do que na vida é porosidade e comunicação”.

Por outro lado, a herança genética é como um fio condutor, tênue, flexível e resistente, que transmite, no percurso da vida familiar, os sinais de identificação e através deles as características de propensão comportamental. Vale a pena citar Drummond novamente:
“Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
Objetos, modos de dobrar o linho, gosto
De usar este raio de sol e não aquele,
Certo copo e não outro,
A coleção de retratos, também alguns livros,
Cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
Antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
Bem sei, mas e esse piano?”

É isto mesmo. Entre a família e o meio social há sempre um piano ou uma orquídea no valo do quintal. O risco da disfunção é sempre iminente. Cada ser humano herda o somatório genético que vem de tempo imemorial, através das gerações, num processo de reciclagem em termos de acumulação e dispersão dos elementos essenciais na formação das novas personalidades. De forma que onde quer que a gente vá há sempre um ascendente na descendência e vice-versa.

(*) Texto extraído das páginas 205 e 206 do livro “Família Oliveira Barreto”, Edit. Express, Divinópolis, MG, 2005 (esgotado) de autoria deste colunista.

domingo, fevereiro 12, 2012

DOIS LIVROS PRECIOSOS.

1 – 60 Anos de Festival de Cannes (1946-2006)

Este livro de luxo, que me foi presenteado pelo filho Paulo e a nora Layla, é uma festa para os olhos e o coração de um inveterado cinéfilo. Legítima expressão documental da
fase áurea do cinema internacional, caprichoso repertório das obras primas do Cinema, fartamente e lindamente ilustrado com as fotos coloridas de cenas dos filmes e dos festivais, exibindo a galeria dos melhores astros e estrelas das seis décadas mencionadas. Senti-me em casa, como se diz, muito à vontade, folheando, lendo e vendo as magníficas e saudosas imagens de tantos filmes vistos ao longo do tempo.

2 – CÕTE D´AZUR.

Outro livro de luxo, para guardar carinhosamente ao longo do tempo (presente também do casal referido, na volta deles de uma segunda lua de mel, agora na faixa belamente turística da Europa). A maravilha da paisagem natural, deliberadamente preservada ao longo do tempo. Dir-se-ia que estamos folheando as páginas do paraíso mais realista deste mundo. Mesmo na área habitada transparece uma espécie de eterna juventude, sem o menor sinal de poluição. A lua parece um sol e vice-versa na Baie de Saint-Tropez, sem falar nas fachadas do casario. O festival das cores mais puras das buganvilhas em Port-Grimaud. A suntuosidades das imensidões, as pedras dormindo ao sol, os campos elísios em toda parte, o panorama suntuoso da baia de Cannes... E as praias de Cannes? E os jardins? Depois vem os cenários de Antibe, Biot, Grasse, Vence, Nice,a Baia dos Anjos.... A naturalidade da fantasia, a realidade dos sonhos. E assim prossegue o passeio pelas 160 páginas em papel e dimensões especiais. Um colírio para os olhos, uma inspiração para o casal Paulo e Layla, moradores na aprazível Vila Verde do Estado de São Paulo. Um presente de ouro e diamante para esse inveterado leitor e cinéfilo.


A RECONHECIDA GENIALIDADE DE GTO. – Lázaro Barreto.

GTO (Geraldo Teles de Oliveira), nascido em Itapecerica, criado e falecido em Divinópolis, é um escultor, na abalizada opinião da artista e escritora portuguesa Ana Hatherly, mais importante do que o Aleijadinho, uma vez que o mestre da arte barroca seguia uma noção estilística de antepassados, enquanto que GTO iniciava um novo estilo, que o crítico Roberto Pontual chamava de “primitivo e criador’.

O grande artista, que honra o renome de celeiro de talentos criativos de Divinópolis, mereceu agora uma homenagem digna de um verdadeiro detentor de indiscutível imortalidade. Refiro-me à Exposição (bela, grandiosa) que o SESC Minas Gerais, realizou em Belo Horizonte com a justa ênfase de um reconhecimento inquestionável.
Tenho o prazer de citar os mentores e realizadores do magnífico evento: Jorge Cabrera Gómez (Diretor de Cultura SESC Minas), Faber Clayton Barbosa (da Secretaria de Cultura de Divinópolis), Rodrigo Viva, Lázaro Luiz Gonzaga, Marcela Yoko, Luciana Félix, Lidia Mendes, os fotógrafos e cinegrafistas Erwin Oliveira, Déa Tomichi, Fábio Belotte e Outros abnegados e competentes produtores de arte legítima. O título da Exposição “Um Dia a Árvore dos Sonhos Inopinados” foi inspirado num poema de minha autoria, notavelmente reproduzido através de declamação, imagens e reprodução (originalíssima) no corredor de uma das paredes brancas. O poema é o que se lê abaixo.

A ÁRVORE DOS SONHOS.

Um dia a árvore dos sonhos inopinados
Desabou na cabeça do escultor GTO,
Que logo começou a vazar
O ouro das dívidas e das imaginações:

A dança dos ícones nas gravuras parietais
A agoniada prateleira dos ex-votos
O balaio das miniaturas e das ampliações
A escalação dos totens, manipansos e penitentes
A montanha devocional das tribos indígenas
As efígies serôdias de Assubarnipal e de Araribóia
Os perfis enfiados dos heróis da história- pátria
Os ritos de passagem dos velhos arraiais
A acrobática peleja grupal dos roceiros.

As entidades espirituais escorregam de suas mãos
Em sombria, quase opaca luz dos transes
Que anima os traços e relevos da matéria-prima.
Assim
Da fratura dos troncos avermelhados saltam
Os guerreiros corporais nas rodas e labirintos
As etnias as classes as mandalas e oroboros
Os símbolos imemoriais de nossa caminhada
É assim que ele tenta regressar à pureza
Que o quer, lá na frente.

E lá um dia os galhos e ramos da árvore
Atávica
Brotam em suas mãos primitivas e criadoras
Assim ele pode sacudir a sina (e para não endoidecer
Nas horas traumáticas do dia-a-dia), e assim ele
Expulsa os demônios do corpo!
Assim ele mergulha na pureza para saber
Que não existe erro na face da terra.


NOVOS POEMAS - Lázaro Barreto.


1 – As Palavras.

Preciso devolver ao jargão corriqueiro
As palavras obsoletas?
Transferi-las da inocuidade do monólogo
Para a loquacidade do diálogo?
Preciso surrupiá-las do dicionário
(limbo imobilizado ao alcance dos apressadinhos),
Escondê-las nos bolsos do corpo e do espírito?
Preciso reconduzi-las aos ermos temerários:
Pinçar um barbarismo aqui,
Um arcaísmo ali,
Acordá-las da sonolência embaraçosa,
Reavivá-las no fogo de meus diuturnos
Serões?

2 – Claridade Difusa.

Alguém me disse
(não me lembro quem nem quando nem onde):
Evite os poemas de circunstâncias
E de encomendas.
A vida é um poema, um problema.
A sombra esconde a luz no emaranhado
Das chamadas palavras difíceis
As páginas em branco são os dias e os lugares
Nos quais tantas coisas e seres
Aparecem e desaparecem.
Os apelos da morte definitiva nos dias transitórios
Chamam, reclamam, enganam.

3 – Sorrisos Femininos.

As axilas são as extremidades
Do sorriso horizontal
Nas mulheres que amamos.

As virilhas são as extremidades
Do sorriso vertical
Nas mulheres que amamos.



4 – Hermetismo.

A orquídea é andrógina, apesar de feminina.
A promessa do amor impossível é uma sombra na parede?
Você pode abraçar o luar, mas não a felicidade:
Assim Sansão, enganado, diz à Dalila, enganadora.

É preciso ter chaves especiais para abrir
As portas do céu que certa moça tem...
Quem teve a bondade de dizer-me assim,
Numa agora esquecida leitura?

O orgasmo é melhor quando as centelhas
Do fervor regressam à alma apaixonada
E brilham,
Brilham sem parar.

O sabiá canta na moita de araçás,
Subitamente eriçada,
No doce sitio do amor acordado
Nas derrapagens do sigilo atordoado.

E agora
Como processar as idéias embutidas nos neologismos
Do hermetismo,
Com tantos silogismos dispersos no ar da tarde
De minha tórrida divagação?