quinta-feira, março 30, 2006

UMA NOVA AUTORA

Ela escolheu um tema bem árido para dissertar. O concretismo, como forma poética, ainda não tem, ao alcance da comunidade estudantil, uma fonte bibliográfica que possa, amplamente, instigar e orientar o estudioso. É um movimento literário de bons resultados e de poucas promessas, que tenta alicerçar uma tradição a meio-caminho da completude, sofrendo a dificuldade de se consolidar, tendo em vista que sua trajetória prima mais pela polemização do que pela poemização (com o perdão deste espontâneo jogo de palavras). Autora iniciante, Marilda Mendes da Silva, emaranha-se um pouco neste terreno movediço, sem ponto de apoio definido. Mesmo assim com brilho e lucidez sua apostilha – “Jornal LiterJovem e Reminiscência do Jornal AGORA Literário” – abrange, circularmente as variantes da dialética dos tempos que hoje correm. A intenção dela é interrelacionar a temática do modernismo das publicações do AGORA na década de 60 com a relação( pós-modernista?) jornalismo/literatura das publicações do LITERJOVEM, de nossos dias. A linha que norteia o texto, como ela diz, é casar a paixão da arte com o fascínio da tecnologia, para acender a luz de uma cultura contextualizada na realidade. Acertadamente ela se vale dos lineamentos históricos do território municipal de Divinópolis, pesquisando e elucidando o encadeamento das idéias e dos fatos que construiram, no tempo, o espaço vivencial das pessoas de hoje em dia. Em poucas palhetadas ela reporta os episódios da fundação da Paragem do Itapecerica, citando os índios da Serra do Cristal, os colonizadores da Picada de Goiás, o papel de Manuel Fernandes Teixeira ao construir a Capela do Espírito Santo e São Francisco de Paula e doando parte de suas terras para constituir o Patrimônio da mesma Capela. Conceitua muito bem o papel dos legítimos dominadores da região, na entrada do século vinte, enfatizando as lideranças políticas de homens ilustres como Antônio Olímpio de Morais, Pedro X Gontijo , Walchir Jésus de Resende Costa, e as lideranças carismáticas dos Franciscanos e dos Mentores Educacionais de órgãos como o Instituto de Educação e Cultura e a Fundação da Comunidade, instauradores da exemplaridade do viés cultural na vida social ainda em formação de uma cidade reconhecidamente progressista. Aí ela descreve e narra o surgimento às vezes paulatino, às vezes simultâneo de instituições e eventos como os grêmios recreativos e artísticos, os clubes de amadores teatrais, os cine-teatros, os jornais de nomes sugestivos como A Prova, O Clarão, Pela Vida, Recreio etc., citando sempre os fundadores e mantenedores. É com a mais grata satisfação que testemunhamos, pois, a estréia de Marilda Mendes Silva, notando, em sã consciência, que o embasamento teórico dela está a exigir o desenvolvimento empírico que virá, certamente, no bojo da maturação de seus ainda verdes anos de vivência intelectual. Assim, aos poucos, ela vai, concomitantemente, recalcando os parâmetros ideológicos e acionando as instintivas ressonâncias do que ela já tem em si, na vocação, na argúcia e no despreendimento. Bem haja, pois.

O VERDE MAIS ANTIGO

Fragmento do roteiro de um curta-metragem realizado em 2001, direção de Osvaldo André de Melo, fotografia de José de Almeida e locação de Paulo Henrique Belém Barreto. 

Como pode o rio viver sem a mata ciliar? O pássaro sem galho para pousar e cantar? A vida sem a água para viver? Ela é quase todo o nosso corpo Quase todo o nosso planeta. Eis a água e o verde, antigos: as duas gotas de clorofila de nosso olhar as virgens fontes da alma das verdes fontes da alma. Ela desce, os peixes querem subir. O sono sobe, os olhos querem dormir: “quem tem amor não dorme nem de noite nem de dia fica rolando na cama igual peixe na água fria” (*). Ouça bem as cachoeiras do coração: são as mesmas do rio de nossa terra? Veja o jogo dos transformadores, os geradores de luz os canais de fuga, os vertedouros, as comportas: são dons e apetrechos do coração? Dois terços do mundo, dois terços da pessoa são água e mais água . Sinta a energia do corpo e do rio: é a mesma? A água está nua onde estiver: brilha na fluência dos borbotões e ainda por cima espelha a árvore marginal que agora tomba entre tantas outras mutilações brasileiras. Ah suspirosa água que refletia meu rosto: agora longe de mim e do rio ela canta em algum lugar, onde uma fonte ainda transborda. 

(*) Trova do cancioneiro popular.

quarta-feira, março 29, 2006

A Imprensa de Divinópolis

A IMPRENSA DE DIVINÓPOLIS - Lázaro Barreto
à Marilda Mendes da Silva


Homens teimosos, de palavra fácil, arremessam dardos,
plantam jornais no chão às vezes sáfaro, às vezes fértil
da cidade que se alonga nos horizontes sertanejos.

Nomes satíricos e falazes (A Sogra, A Gazeta Sanitária),
bolados certamente por filhos mórbidos da vida custosa,
que sabem do amargo salutar de toda face humana.
Nomes líricos e verazes (Diadorim, Agora), recolhidos
das mais rudes invernadas regionais, procuram quem
está na berlinda, quem se esconde na barbaridade?
Eles brilham no escuro, escurecem na claridade.
Sabem que a floração dos escaninhos do poder
influi na tremedeira do medo alvejado.

Cônscios de seus objetivos, muitos carregam
os nomes de Sentinela, A Prova, O Clarão,
esculpidos nas dobras de uma bandeira
hasteada aos ventos contraditórios das desigualdades.
Todos cumprem seu destino, adubam os campos
enchem de perguntas os terrenos baldios.
Outros nomes portadores de tímidas epopéias
(Bilhete Azul, Arrebol, Carcará, Aqui Pra Nós)
colecionam incertezas, desafetos, penalidades;
mesmo assim aos trancos e barrancos
escrutinam os fazeres e as omissões cotidianas.

Às vezes procuram a flor e encontram a ferida.
Tecem comentários enrubescidos, pisam na bola.
Às vezes conseguem interceptar o malfeitor,
às vezes legitimam as irregularidades dos mandatários.
Assim conseguem tirar do atoleiro suas edições
empenhadas nas subtrações da rentabilidade.
Mesmo assim: aprovando, reprovando, provando
o letal gosto da vida moribunda, cansados
de dar tiros de canhão em tico-tico
(mesmo ostentando agora os conciliadores
nomes de Recreio, Variante, Filhote), eles
acertam em cheio a mutreta dos cabeções
(isso antes de redigir os próprios epitáfios,
antes de mudar seus ramos de negócios).

terça-feira, março 28, 2006

DOIS POEMAS

1 – A Carga Hereditária (*) Quando pensar na História do Brasil não pense como descendente do colonizador não assuma nem negligencie o sentimento de culpa Depois de tanto tempo é possível que Deus já tenha lavado seu sangue, arejado sua psique Por que se martirizar na penitência daquela sangria desatada de um paraíso logo-logo transformado em inferno? Por que perpetuar tanta violência? Tenha consciência, ó filho mórbido da vida é mais salutar assumir a chaga do colonizado ser pentaneto do índio sem orelhas e sem bagos ser tetraneto do afro na senzala no pelourinho na canga Tenha consciência da realidade na travessia do milênio respire fundo, relaxe e olhe no espelho: não vê nele, renascido das cinzas do lixo da História o verdadeiro brasileiro? 

(*) Escrito por ocasião dos 500 anos do Descobrimento. 

2 – A Árvore dos Sonhos (*) Um dia a árvore dos sonhos inopinados desabou na cabeça de GTO (1) que logo começou a vazar o ouro das dívidas e das imaginações: a dança dos ícones nas gravuras parietais a agoniada prateleira dos ex-votos o balaio das miniaturas e das ampliações a escalação dos totens, manipansos e penitentes a montanha devocional das tribos indígenas as efígies serôdias de Assubarnipal e de Arariboia os perfis enfiados dos heróis da história-pátria os ritos de passagem dos velhos arraiais a acrobática peleja grupal dos roceiros. As entidades espirituais escorregam de suas mãos em sombria, quase opaca luz dos transes que anima os traços e relevos da matéria-prima Assim da fratura dos troncos avermelhados saltam os guerreiros corporais das rodas e labirintos as etnias as classes as mandalas os oroboros os símbolos imemoriais de nossa caminhada É assim que ele tenta regressar à pureza que o quer, mais adiante, aqui e alhures. Um dia depois os galhos e ramos da árvore atávica brotam em suas mãos primitivas e criadoras Assim ele pode sacudir a sina, assim ele expulsa os demônios do corpo para não endoidecer nas horas mais traumáticas de cada dia Assim mergulhado na pureza das horas ele fica sabendo que não existe erro na face da terra essa amplidão doméstica de pobres inocentes. 

(*) Poema publicado no Suplemento Literário do “Minas Gerais” em 02/06/1973. Ele dá título e faz abertura de um filme de Carlos Augusto Calil e Lauro Escorel, de 1978. 

(1) GTO: iniciais (como nome assumido) de Geraldo Teles de Oliveira, famoso escultor, primitivo e criador, enquanto viveu em Divinópolis (era natural de Itapecerica).

A CAYETANA DE GOYA SEGUNDO SAURA

A fantasia desprendida da razão produz monstros, unida a ela é a mãe das artes e a origem das maravilhas, isso ele aos 80 diz à filha de 14, na casa em Burdeus submersa em trevas, que era um promissor museu de duendes e caprichos. As cores violentas e distorcidas nasciam de lúcidos pesadelos nos sótãos e porões da miopia e da surdez dele em si e de nós em nós. Devorado pelos monstros que criou nas paredes da própria casa, as cores fortes para o bem e para o mal, onde o branco ausente é negro e vermelho e lembrança febril das padiolas ao lado das covas rasas dos vivos que já morreram, dos mortos que ainda vivem – ele vive. E lá fora na vida, mesmo na bruma da corte e no purgatório do atelier a (ah!) a Cayetana é fogosa e risonha a Duquesa de Alba - toda ela uma manhã dentro da noite: as costas rachadas do pescoço ao períneo o frenesi em cada pincelada a cara de peitos a redondidade das maçãs o rosto afilado o pescoço fino os ombros arredondados e a bunda mais uma vez aristocrática os seios os seios (dois em muitos) - toda ela ali só dele, Goya inclinada no leito de rosas negras a boca de amor e vida incansável na sensualidade, frívola na sabedoria e na deslealdade?, finalmente envenenada pela ignorância e a corrupção e a calúnia deste mundo ímpio em certas ocasiões. Podia pintá-la de cór e salteado, ouvi-la mesmo na surdez extemporânea: cada cena emendada à outra cena é um esboço que se completa no painel da sucessão dos aperitivos e refeições da alma, os pormenores buliçosos na fatalidade explosiva para o bem e para o mal ah! não é à toa que as espanholas são lindas repletas de minuetos castanholas sapateados as vozes em corriolas e tamancas em água fresca ao nível do mar, perto do rio elas gostosas dos pés às cabeças os olhos que voltam para ver outros olhos no amor de dois de dois amores em quatro olhos o ponto mais alto da arte.

quinta-feira, março 16, 2006

HISTÓRIA DE ARCOS

Livro publicado em 1992. Fragmentos Páginas 86 até 88 (sobre o papel da mulher na comunidade): 

A colonização de um continente, de um país, de um estado, ou até mesmo de uma região, tem sempre uma história violenta. O colonizador tem uma missão a cumprir, custe o que custar. A empreitada inicial é abrir caminhos e criar condições existenciais de uma horda de adventícios, que logo instauram no meio geográfico o leque de novidades no campo biológico, na esfera religiosa, na ideologia econômica e na norma moral. A novidade é imposta sem pestanejar, a ferro e fogo, doa a quem doer. Esse papel pioneiro só pode ser desempenhado por homens fortes, infensos aos escrúpulos e à sensibilidade, imbuídos da prevalência do componente trágico de sua natureza humana. Portadores de uma tecnologia mortífera que os tornam superiores aos nativos, os adventícios desbastam, cortam, matam e queimam as espécies minerais, vegetais e animais que aparentemente oferecem resistência física ou moral. Foi assim em toda América, do continente ao município. A mulher, por ter sido considerada a parte fraca, o sexo frágil, foi alijada do processo violento, não participou da centenária refrega colonizadora. Ela só vinha ocupar o território depois que o índio tinha sido eliminado, o lobo escorraçado, a mata derrubada, o ecossistema alterado. Nem mesmo longe, no sacrifício de Cristo , ela teve participação brutal. A natureza feminina tem muita susceptibilidade – uma leveza mais aérea que terrena-: a vulnerabilidade (para não dizer o temor e a fragilidade) percorre os poros, é intrínseca à dualidade de corpo-e-alma. Em comparação à avalanche de “heróis” na história da civilização, a presença de “heroínas” é bem minguada. Para cada dez césares romanos surge uma cleópatra egípcia. A própria Helena de Tróia foi mais objeto do que sujeito nas escaramuças homéricas. O matriarcado brasileiro, se é que existiu, é invisível, restringindo-se ao camarim, não assoma nem mesmo ao bastidor. As nossas Chicas da Silva, Joaquinas de Pompeu e Donas Bejas são estrelas excepcionais. Interpretam os primeiros papéis de muitas peças, mas nunca manejaram a espingarda, a espada, o facão. Na História de Arcos, no entanto, vemos, não raro, a mulher ser nomeada para função ordinariamente atribuída ao homem: não é apenas a professora, mas também a agente postal: a dona de casa às vezes dá lugar à fazendeira, ou seja , a dona da casa. E , lado a lado com o homem, desempenha airosamente as funções de Juíza de Direito, Promotora de Justiça, Prefeita Municipal, Vereadora, Presidente de Sindicato e Presidente da Câmara Municipal. Parece até que já vimos esse filme americano nos trâmites do feminismo: educada para ser esposa de médicos, engenheiros e políticos, elas se tornam de um dia para o outro em médicas, engenheiras e políticas. Só que aqui essa dualidade sexual se dá sem traumas, sem expectativas, sem decepções. A que podemos atribuir tal coexistência pacífica na voz de mando das direções domésticas e sociais? Só há uma explicação plausível: se a mulher arcoense ocupa funções no primeiro plano das ações sociais é porque o homem arcoense é menos machista do que o dos outros lugares. Mas isso é possível? Sabemos que o companheirismo e não a competitividade entre os dois sexos, na região, vem de longe, vem dos primórdios: as filhas de Ignácio Pamplona obtiveram as primeiras sesmarias e, ao que consta, nenhuma delas saiu pelos campos e matos a perseguir e matar índios e negros. Dos sete primeiros proprietários de sesmarias da região, quatro eram mulheres.Rosa, Simplícia, Theodósia e Bernardina, filhas de Ignácio Corrêa Palmplona ( vilão (delator) da Inconfidência Mineira), eram donas absolutas da maior e da melhor parte do território regional. Se não instituíram o matriarcado de rigidez feminista logo a partir de 1767 é porque naturalmente amenizavam a truculência do pai e de seus asseclas com a doçura peculiar da feminilidade da época. Saiu ganhando a cultura popular arcoense: em vez do mandonismo da linha machista na região, ao longo do tempo, tivermos uma classe dirigente que pontificou sem derrapar, sem cair no esbarrancado dos radicalismos. ............................................................................................................................ No século passado, duas mulheres com o mesmo nome de Anna (Anna Joaquina Alves Gondim e Anna Rodrigues Gondim, de velho tronco familiar do Tamanduá) possuíam e administravam o latifúndio da Fazenda Cristais. Em 1875, outra matrona, Carolina Maria Leopoldina, dá procuração a Antônio José Santiago e José Alves Mendonça para o procedimento de cobrança judicial contra Jerônimo Gonçalves Chaves. Em 1917 duas mulheres, Isaura de Souza e Maria Fernandes, fundaram e dirigiram o belo jornalzinho “Sorriso”, que era um mimo tipográfico, coisa mesmo de moça e mulher, todo esquadrinhado de adornos, redigido com sedutora discrição, chamativa elegância e irreprimível charme. Assim ele acalentava várias expectativas a cada vez que se editava: humorismo de salão, jogos pensamentais e verbais e sobretudo a reflexão de uma cultura refinada e feminina a vicejar como risonhas flores nos idos de 1917, quando a região arcoense ainda era confundida com os redutos do sertão. O doce pássaro da juventude cantava em suas páginas. Na edição de 12/08/1917, outro jornal , o “Echo” publicava uma lista de predicados exemplificados nas figuras femininas da sociedade local. Assim: “O exemplo de Belleza é Cecília Lara,, de Sympatia é Alice Magalhães Pinto, de Jovialidade é Marcília Fonseca, de robustez é Marianinha Magalhães Pinto, de Amabilidade é Laurinda Fonseca, de Bondade é Rosinha Álvares Gontijo, de Sinceridade é Joaninha Alvares Gontijo, de Inteligência é Maria Fernandes, de Candura é Odilla Guimarães de Albuquerque, de Ternura é Odette Guimarães de Albuquerque, de Urbanidade é Edith Andrade, de Loquacidade é Laurita Magalhães Pinto, de Expansibilidade é Gersony Verçosa, de Serenidade é Jovita Zica” Na seção de Perfis que o jornal publicava regularmente, esta jóia expressional a respeito de uma jovem que o escriba anônimo idolatrava na obscuridade: “ É clara, cabellos d’oiro, modestamente amarrados por um lacinho de fitas. Boca pequena, enriquecida pelo par de finos lábios porporinos, guarnecidos por duas colunas de delicados dentes de perola..., seu nome escreve com quatro consoantes e quatro vogais, sendo duas consoantes egemmadas”.

quarta-feira, março 15, 2006

A RELER SARTRE, QUARENTA ANOS DEPOIS (*)

O homem, atolado no lodo, é realmente vil? É um doente, sem dúvida, mas se realmente dotado de auto-medicação contra a depressão da angústia, ele pode erguer-se, ainda um pouco solerte e um tanto confuso, com os meios da própria força de vontade. Tocaiado nas curvas dos caminhos e das esquinas, já dizia La Bruyere, o homem vil salta no corpo-e-alma do homem desprevenido, como se fosse uma mosca a procurar dilacerações, para infeccioná-las. Por que não amar em quem amamos (ele dizia-escrevia) “o esôfago, o fígado, os intestinos?” Muito mais bem-amada é a estrela do mar, que expele o estômago na praia estival, para mais ensolarar-se em suas peles internas, momentaneamente expostas. Lulu sentia vergonha de seu traseiro, não queria que ninguém lhe fizesse algo que não pudesse ver – e o marido adorava enxergar com as mãos. Uma coisa de homem, se estivesse sob uma saia, seria como uma flor, ele diz em certa página. Ela sentia prazer em si mesma, pensando em coisas puras, padres e mulheres. As axilas femininas não raspadas, azuladas sob os pêlos anelados, o irmãozinho a cogitar se erali que se fazia sexo, uma parte angelical tão ardorosamente beijável. Um rio vermelho a serpentear sobre campos áridos, era assim o desejo ziguezagueando no corpo dela . Estou sim a reler Jean Paul Sartre: tentei sepultá-lo antes dele morrer, mas sinto que agora ele vem a mim, empunhando suas obras, nas quais a arte das palavras fala mais alto aos ouvidos (supostamente tapados): o existencialismo é uma meia-luz a menosbrilhar nos confins das existências, mesmo nos das ainda não alcançadas. Estou, sim, a reler Sartre. Estou na página em que Risette examina, escandalizada, as obscenidades das formas corporais do corpo da amiga Lulu: “um tralalá pequeno e redondo, ou seja, saliente e indecente”. O traseiro pelo qual a própria dona sentia vergonha, tentava escondê-lo com as mãos e contra as paredes, mas... mas mesmo assim colava-o por dentro da saia e, pronto!, era ali que dançava a magra silhueta azul da pequena redondidade. “Só eu me posso dar prazer”, ela dizia. “Ninguém crê em mim, só o médico, que disse ser uma doença incurável. Meu Deus, pensar que a vida é isto, que é por isto que a gente amanhece e anoitece, se lava e se faz bonita e todos os romances se escrevem”, tudo assim nos trâmites, como se ela não fosse frígida de nascença, afogada em nuvens de pesadas entrelinhas, ela bem que preferia anular-se nos desvãos e nos caudais e ser apenas triste e pura na eterna orfandade... Mais tarde um pouco do dia infindo, ela resolve que rumo tomar na vida e escreve ao amante (apesar da frigidez dividia o corpo com o marido e o amante): “sou sua de todo coração, meu corpo é todo seu... nós nos veremos amiúde como no passado. Henri, porém, se mataria se não me tivesse mais, eu sou-lhe indispensável...”. 

(*) O livro relido é O MURO, tradução de Hovanir Alcântara Silveira, Instituto Progresso editorial, São Paulo, SP, sem data.

domingo, março 12, 2006

APENAS UM CORAÇÃO SOLITÁRIO (*) - Romance

Fragmento 

Páginas 168 e 169: Nem mesmo o celibatário mais convicto poderia imaginar em sua duradoura solidão uma vila de solteiros como a nossa repleta de jagunços na rua, canoeiros no rio sucuris e jibóias na praia de baixo surubins e jacarés a boiar nos remansos... Custo acreditar no que vejo: uma coletividade (não diria um meio social) sem famílias administradoras da ordem, desprovida do choro das crianças, das cantigas das mulheres: mesmo o leitor custa acreditar, não? As setas submersas do sol, como diria Marianne Moore são os peixes vivos do Paranaíba na líquida vidraça de seus deslisamentos em finquetes e estirões de guelras e barbatanas em formas de lambaris bagres pacus traíras... A cachoeira na meia-cabeceira, na embocadura de outras águas mais chuvosas, manda suas pétalas e espumas aos chefes das obras que esburacam e entopem aqui e ali e acolá, que só merecem dos candangos pensamentos em forma de pedras nas mãos e palavrões cabeludos nas bocas, tal é a raiva do ódio deles, quando o dia vai morrendo nas nuvens do pó das pedras. A cachoeira a tossir e espirrar as perfeitas girafas do arco-íris as asas molhadas das miragens, e depois de toda azáfama desconstrutivista vem a golfada de bolhas douradas (uma criancice de fim de semana?), a descansativa serenidade de um raríssimo domingo. O que eu menos esperava, acabou acontecendo. Vieram dizer-me no quarto, onde eu relia trechos do Apocalipse, que tinha um casal lá fora querendo falar comigo. Pensei que fosse gozação. Um casal, ou seja, um homem e uma mulher lá fora? Onde já se viu um homem de juízo conduzir uma mulher direita por zona tão desregrada? Por mais boba que fosse, nenhuma mulher seria doida de andar naqueles becos e ruas habitados por mais de mil tarados.... Fiquei bobo quando revi o velho Demétrio e a sempre remoçada Eponina, ele a gaguejar, ela vermelha de vergonha. Os dois chegaram justamente na hora que os moradores tinham voltado do trabalho e estavam à vontade, completamente pelados no calor do veranículo de ano inteiro do lugar. O Demétrio, mesmo no acinzentado do crepúsculo, tingia os olhos e o rosto de enrugada vermelhidão; a Eponina, engasgada na passividade, não sabia onde pôr os olhos, as mãos, os pés.”Você mora numa colônia de nudismo?” um e outro queriam perguntar, mas não perguntavam. Eu, que devia estar mais constrangido, não estava. Quem mandou eles andarem pelo mundo, procurando o que não perderam? 

(*) Com este romance o autor fecha a Tetralogia do Cinéfilo”, constituída na ordem consecutiva dos outros já mencionados neste blog, ou seja: “Monólogo e Pranto”, “Por Que Choras, Saxofone?”, “Barra Funda – a Evaporação dos Paradigmas”. Sendo que o segundo e o terceiro foram redigidos em versos livres e os demais numa escritura mesclada de prosa e verso, com a ressalva, necessária no caso, de que tal recurso não fere a hegemonia convencional dos poemas da poesia, uma vez que a intenção foi de procurar uma forma narrativa mais despojada e sintética, uma versiprosa quem sabe mais fluídica e legível.

sábado, março 11, 2006

SEIS PEÇAS TEATRAIS

Para serem lidas em vez de encenadas?

1 – O Fogo Corredor (escrita em 1978, inspirada na leitura do “Fausto”, de Goethe, e no testemunho de alguns acontecimentos do período do Golpe Militar de 1964. Inédita. Fragmento (página 39): Interlúdio no Inferno. O cenário da caverna salpicada de sons e luzes estranhas. O Satanás preside a reunião com Tinhoso, Capeta, Mão Furada, Coisa Ruim e Furricoco. SATANÁS (à platéia): É nosso costume, aqui nas profundezas, no final de cada empreitada, reunir os chefes legionários, para uma breve prestação de contas, acompanhada de sugestões para o exercício entrante. Muitos chefes setoriais costumam chegar aqui no Porão com as mãos vazias, o coração exangue, os olhos afogueados. Na maioria das vezes, no entanto,o saldo é positivo – e assim o vulto dos negócios, a capitalização dos bens, a margem dos lucros, tudo corre a nosso favor, de forma que o nosso patrimônio cresce em quantidade e qualidade. Isso para quem começou do nada, é um resultado exultante, um feito glorioso. Se ao cabo de mais alguns lustros o nosso superávit for da mesma ordem, posso dizer que ninguém nos segurará mais. A possessão do mundo será líquida e certa, como esta escuridão que nos ilumina. CAPETA: No meu setor de atividade funcional, especificamente... SATANÁS (cortando): Espero que sejam lacônicos e objetivos e nada do nhenhenhem neo-liberal. Não temos tempo a perder. Muita gente nos espera em toda parte. O Inferno não pode parar! CAPETA: Baixei o cacête sem dó nem piedade, se é isso que quer saber. Em todos que desafiavam a ordem estabelecida. E foi mole-mole. O pessoal é fraquinho: basta uma intimidação, uma notícia marota, que logo entrega o anel de couro. O povinho é esmirrado e apático, que fica de boca aberta esperando os nacos disso e daquilo que vem de cima. Às vezes até fico com dó de aplicar o castigo que eles já sofrem de antemão. Tem cabimento? É um povinho que tem medo do escuro, tem medo da luz,, tem medo até do patrão quebrar. Tem cabimento? Tinham lá uns duros na queda, mas com eles fui mais duro ainda, almoçando-os antes que me jantassem (lambe os beiços). 

2 – O Reinado (escrita em 1976, como parte do romance “Monólogo e Pranto”). Inédita. Inserida no contexto do romance. Desaconselhável fragmentar. 

3 - Quem viu o ninho da égua?  – comédia que teve um dos atos encenado no Theatron, em Divinópolis, em 1988. Inédita em sua inteireza. Fragmento: página 2. 
Primeiro Ato: A PRAÇA. O cenário tem que ser amplo ou pelo menos dar essa impressão. Deve comportar, em sua dimensão semi-circular, a passarela dos namoradores (também conhecida como “avenida”, “vai-e-vem”, “foothing”), que servirá, também, de passarela das pessoas comuns; alguns bancos para descanso e lazer das pessoas do povo; e a plataforma acústica que ocupará, quando acionada na encenação, parte da passarela e o fundo semi-circular do palco. Quando a cortina abrir, o foco principal de luz incidirá sobre um cartaz imenso e legível, no alto da plataforma, ostentando os dizeres: “O Presidente João Figueiredo participou com o deputado Magalhães Pinto num comício em Juiz de Fora quando ele disse ao povo votem nele: é deste grande homem que vocês precisam para governador e o povo feliz da vida gritava viva o deputado Magalhães Pinto que é amigo leal do presidente João Figueiredo! (a parte sublimada deve ser impressa no cartaz em outra cor, para acentuar a distinção das leituras). Um coro de três pessoas representam a adaptação da canção folclórica “A Velha a Fiar”, através de cantos ou declamação e o acompanhamento discreto de pandeiro, tambor e reco-reco. 

4 - Aqui Neste Desterro (escrita em 1994 – inédita) Fragmento: páginas 56 e 57). João José (surgindo do escuro para a claridade, que vai esmaecendo até que apenas um pouco de luz paire sobre o rosto dele): Não foi nenhum veneno que a matou..., foi o meu amor. Amei-a com tanta força nos caminhos e nas horas da noite, que ela não agüentou...Apertei tanto seu coração.... Não sabia que o meu coração podia ser tão violento, que podia atravessar as pausas da melodia. Como poderia ter dosado a sofreguidão do carinho? Quando vi, ela já sufocava nos braços do prazer, perdia a fala no transe, sentia câimbra no abdomen e nas virilhas, ria e chorava sem parar. de repente eu não sabia o que fazer, o que desfazer. Fui aos poucos abrandando minha febre, esfriando minhas palavras, sossegando minhas mãos. Assim aos poucos ela foi serenando, foi serenando até dormir. Acionei todos os silêncios da casa, apaguei as lamparinas e lampiões, tomei um banho de água fria, serenei meus pulsos e minhas artérias, abandei a cabeça com a toalha molhada do sono que já tinha bafejado as serenadas feições de minha doce amada. O sono que no momento de trégua eu não sabia que era para sempre. Assim dormi ao lado dela, ao lado do sono eterno dela. E quando o sol despontou nas grimpas dos laranjais do quintal, só eu acordei na vida deste mundo. Ela continuou dormindo. (A réstia de luz que atingia seu rosto, desaparece). 

5 – Quem Matou o Filho da Onça? (comédia infantil, encenada no Theatron, Divinópolis, em 30/11/1998, sob a direção de Oswaldo André) 
Fragmento (*) página 2: Macaco (em tom declamatório): Não sei de onde partiu o boato que corre por aí que o homem descende do macaco, besteira igual eu nunca vi. Não tem o que fazer quem espalha tal pilhéria. Quando foi que um de nós deixou a mulher e o filho na miséria? (os outros personagens vão chegando em silêncio e em silêncio fazem uma roda vida, movente, de mãos dadas, em torno do Macaco, que continua declamando) Quem já ouviu falar de um macaco que escondesse o coco dos irmãos? Quem já ouviu falar de um macaco que dá o tapa e esconde as mãos? Outra coisa que nenhum de nós faria: sair de casa para de álcool se encharcar. Ou usar a arma de ferro ou de fogo para a vida de outro macaco tirar. O homem descende de seus avós. Nunca, nunca descendeu de nós! (paráfrase de um poema folclórico norte-americano). 

6 – Na Fila da Vida (reaproveitamento de uma idéia de Adélia Prado, antes aproveitada no texto “O Clarão”, que ela produziu e dirigiu, com texto de ambos, na década de 70, em Divinópolis e outras cidades do centro-oeste de Minas). Inédita na atual versão. 
 Fragmento (páginas 52 e 53): Seqüência da cena anterior na praça imaginária da cidade também imaginária do Espírito Santo, Minas Gerais. Ao escurecer. Maria e José permanecem sentados num dos bancos, tomando fôlego antes de providenciarem a pousada. José: Você deve estar pondo a alma pela boca de tão cansada. Maria: Eu? Sou bem capaz de continuar andando noite adentro até chegar em Catiara. (alisa o abdômen).É como se tivesse quatro pernas para caminhar, quatro braços para cortar os ares. José (reparando o movimento urbano): Conhece Rei João, Maria? Maria: Não, não. Só conheço os arraiais velho e novo. (pensa) Se papai não tivesse ido tão cedo..., ele tinha prometido levar mamãe e eu em Belo Horizonte, na ocasião da Feira Permanente de Amostras. José: Conheço outros lugares perto daqui, mas a Capital não. Se não está mais cansada, vamos, então, procurar a tal pensão? Maria (observando o homem que estava em outro banco aproximar deles): Esse aí, Zé, não dá trela não (abre a Bíblia e começa a ler em voz alta as palavras de Jeremias: “O senhor vai castigar os pastores que não tomaram conta de suas ovelhas. Ele reunirá as que não se dispersaram e as fará voltar a seus campos, onde se reproduzirão e multiplicarão. E na boa onda dos novos dias o Senhor fará nascer um descendente de David, que reinará na sabedoria, na justiça e na retidão de toda terra abençoada”). Homem da Cidade(depois de ouvir a leitura dela): Vocês são batistas, evangélicos? José: Somos católicos, na graça de Deus, dos santos e dos apóstolos. Homem da Cidade (agachando-se perto deles) De onde estava (aponta o outro banco) apreciava vocês dois aí nessa bela união, ela em estado interessante... Estão meio perdidos na cidade? Quem sabe posso ajudá-los em alguma coisa? José: Acabamos de chegar do Arraial Novo. Estamos descansando um pouco. Depois vamos procurar uma pensão para pernoitar. Homem da cidade (tentando sentar-se na ponta do banco,ao lado de José, que arreda um pouco, pondo a sacola no colo): Sou daqui e gosto de ajudar os forasteiros. Vocês irão pra onde, depois? 

(Além das peças mencionadas, LB participou , em parceria com Adélia Prado, das peças “O Clarão” e “Três Horas de Trevas”, encenadas em Divinópolis, e “Lapinha de Jesus”, encenada no Rio de Janeiro, por Luzia Fonseca).

sexta-feira, março 10, 2006

ENTREVISTA INÉDITA PARA PUC MINAS

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Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais 
Programa de Pós-Graduação em Letras – Literaturas de Língua Portuguesa. 

Entrevistado: Lázaro Barreto. Entrevistador: Maurício J. de Faria, em 09/09/1999. 

Pergunta: Como você começou a se interessar por literatura? 
Resposta: Na leitura de um livro escolar chamado “Manuscrito”, na década de 40, que continha cartas enigmáticas, trava-línguas, parlendas, trovas populares e em textos como “A Última Corrida de Touros em Salvaterra”, de autor esquecido, “Meus Oito Anos”, de Casemiro de Abreu e “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Foi neles que percebi que a vida real e vivida tinha uma continuação, um adendo enriquecedor, na vida imaginada, possibilitando assim o processo de recriação e a talvez equivalência de um poema com um feixe de lenha ou uma espiga de milho. 

Pergunta: Cada escritor tem um jeito muito particular de escrever. Qual é o seu? 
Resposta: Todo mundo que escreve (seja escriturário, escrivão, escritor) precisa munir-se antecipadamente de papel, esferográfica, mesa, cadeira (e depois, se puder, de uma máquina de escrever ou de um computador). Até aí o tal jeito particular não aparece, pois ele é mais abstrato e pré-existe ao ato físico de escrever. De minha parte, costumo abrir as gavetinhas da memória, tirar os dados antigos, ainda fresquinhos, e misturá-los com os fiapos de impressões e conversas obtidas recentemente, andando nas ruas e conversando com as pessoas. Só assim, com parte do material nas mãos e na cabeça, é que vou esboçar e escrever o texto que, depois, pode apresentar um resultado que nada tenha a ver com o material reunido, a não ser o impulso do começo. 

Pergunta: Em que você se baseia para escrever os seus textos? 
Resposta: Dois substantivos, Vida e Mundo, atrelam todas as outras categorias gramaticais no cordel de mão dupla: da diversidade e da unidade. Se o espírito está pronto, o próprio corpo paira sobre as águas. 

Pergunta: E a leitura? Quando você começou a se interessar por ela? Em que idade? Em que circunstâncias? 
Resposta: O interesse mais agudo pela leitura veio depois da alfabetização, é claro. Aí um autor levava a outro: Gonçalves Dias depois Bocage, depois Dostoievski, depois Drummond e o grande elenco dos modernistas brasileiros, com posteriores e instigantes recuos aos clássicos (Goethe, Cervantes, Shakespeare, Keats, Machado de Assis, Flaubert, Tolstoi etc). O pico do interesse foi na juventude, numa espécie de exílio que eu então vivia no nordeste de Minas, trabalhando num canteiro de obras de construção da primeira grande usina hidréletrica do Estado, nos anos 50. Para fugir da existência meramente vegetativa a que estava condenado, eu, além de trabalhar doze horas por dia, comecei a ler, ler e ler. E o que é bom sempre acaba viciando: depois de Faulkner você fica ansioso por conhecer a obra de Thomas Mann e depois a de Manuel Bandeira, de João Cabral, de Clarice Lispector, de Fernando Pessoa etc. 

Pergunta: Você costuma estudar e/ou pesquisar muito antes de escrever? 
Resposta: Sou formado em Ciências Sociais e já escrevi alguns livros de histórias municipais e de cultura popular e até de genealogia. Nesse caso a pesquisa (tanto a de campo como a bibliográfica) é fundamental, imprescindível. Mas na parte literária, que é a minha preferida, a pesquisa é mais introspectiva, a gente não precisa ir longe, pois tudo que é humano pode afluir numa só vida e tudo que é mundano costuma condensar-se no lugar em que estamos vivendo. 

Pergunta: Qual é o papel do escritor nos dias de hoje? Fazer um resgate da história? Resgatar uma tradição de narrativa oral? 
Resposta: Dar um bom (justo e saudável) testemunho de seu tempo. E, se for possível, priorizar em seu trabalho os valores edificantes da humanidade, como o respeito pela biodiversidade planetária e a prevalência dos valores da poesia (da piedade) sobre os da política (da violência). Uma ressalva, porém. Quando disse edificante não quis dizer pasteurização nem mistificação. Quero dizer o que é belo simplesmente por ser verdadeiro – e que merece um tratamento condigno, ou seja, igualmente belo e verdadeiro. 

Pergunta: Como você definiria o ato de escrever? 
Resposta: Um exercício gráfico de incontáveis consequências anímicas. Da página em branco pode brotar uma lei moral, uma condenação judicial, uma carta de amor, um aviso fúnebre, uma letra de música, uma quitação final, o testamento de um moribundo, uma composição infantil. Na CEMIG, onde trabalhei durante 30 anos, havia uma recomendação metodológica de trabalho no escritório: “Não fale, escreva”. 

Pergunta: Qual é o seu principal objetivo, ao escrever? 
Resposta: exorcisar os demônios do corpo e da alma? Entoar cânticos jubilosos ao Criador? Sei lá. Só sei que não saberia viver se não dispusesse de uma folha de papel e de uma esferográfica a meu alcance, constantemente. Escrevo também para manter acesa a pequena e humilde vela que ao menos precariamente esclarece os embargos, os transes, as incursões e as regressões de nossa vida. 

Pergunta: O que você sente quando está escrevendo? 
Resposta: Uma grande tensão. A vontade de que as palavras necessárias não deixem de pousar em minhas mãos, depois de fazerem uma pausa no cérebro e no coração. E também a insatisfação mesclada com a esperança de que na próxima vez estarei mais apto e serei mais feliz. 

Pergunta: Por que você escreve? A família participa do processo de criação? Como se dá esta participação? 
Resposta: Porque? Porquê deveria estar fazendo mesmo alguma coisa, não? Um amigo justificava a razão pela qual plantava árvores que levariam décadas para frutificar, sabendo que nem vivo estaria mais, quando isso acontecesse. Ele dizia: “Se eu plantar o tempo passa, se não plantar, passa do mesmo jeito. Então, por que não plantar?” Sei que a família talvez preferisse uma atividade mais rentável e menos absorvente. Mas, o que hei de fazer? Se não escrever as coisas que escrevo, quem as escreveria? Sei que não são grandes coisas e por isso procuro incomodar o menos possível a família e os amigos, nesta ocupação que na verdade é muito solitária e atípica. Li certa vez, não me lembro onde, que o dramaturgo Eugene O’Neill se enfurnava no porão de sua casa para escrever sua grande e bela peça autobiográfica “A Longa Jornada do Dia Para Dentro da Noite” e só aparecia aos familiares para tomar suas refeições ligeiras, mal escondendo os olhos inchados de tanto chorar enquanto trabalhava. A família e os amigos participam, sim, do processo de criação de todo autor, não apenas como personagens afetivos e sobressalentes, mas principalmente como inspiradores e propiciadores do trabalho em sua livre e espontânea execução. 

Pergunta: E quanto aos seus hábitos de leitura? Poesia, prosa? 
Resposta: Quem quiser escrever, terá, antes, que ler os bons autores, não para imitá-los, mas para superá-los. Isto é o que Hemingway dizia à jovem que lhe pediu a receita da boa escritura. É claro que ninguém jamais superará Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Guimarães Rosa.... Mas ninguém em sã consciência espera mesmo isso todo dia. Sonhar alto já é um bom passo no longo e tenebroso caminho. Quanto à forma (ao gênero), entre a poesia de Homero e a prosa de Joyce, fico com ambas, ou seja, sofrendo e gozando ambas as influências. 

Pergunta: Qual é a sua reação ao encerrar a escritura de um livro? 
Resposta: O pesar de não ter conseguido, mais uma vez, o resultado almejado. Mas todo ser humano é o que é, ou seja, como diz Santayana,é ele e a sua circunstância. Se o trabalho ficou ao nível de minha capacidade, então eu o empilho no rol dos inéditos numa das prateleiras de meu armário. Se constato que ficou abaixo do nível, eu rasgo e jogo fora ou o reservo para posterior reescritura. 

Pergunta: Há algum tema, em especial, sobre o qual você se sente mais à vontade para escrever? Resposta: A vida das pessoas em seus trâmites, iniciativas e aceitações, nas suas repulsas, recalques, contentamentos, indignação: todo o processo do que deveria ser e desgraçadamente não é. E tudo o mais. 

Pergunta: Observo a presença em seus contos de “loucos” bem característicos. Há uma relação direta entre eles e o que eles representam? 
Resposta: A cultura popular, que diz nos seus rifões que “de poeta e de louco todo mundo tem um pouco”, é a base mais segura da cultura erudita. Os “loucos” dos contos são pessoas comuns que acordam das teorias e dos sonhos para a prática chocante das realidades imprevistas. São loucos metaforicamente e não patologicamente. Fazem-se de loucos em resposta à possessão do mundo, à loucura social. É uma espécie de recurso de sobrevivência: muitos fazem-se de doidos para não enlouquecerem de verdade. Mas o clima que tento criar na minha ficção fica longe da atmosfera um tanto irrespirável da ficção de Faulkner, na qual, segundo um crítico, seria impossível viver sem perder, dia a dia, a sanidade mental. O ficcionista não é sádico nem masoquista, apenas tenta enfrentar lucidamente o deturpado mundo dos políticos e cientistas de nosso tempo, esses sim, os loucos varridos, os verdadeiros fazedores de psicoses, desde as depressões, obsessões, paranóias até as neuroses mais agudas. 

Pergunta: Seus contos se pretendem documentais? 
Resposta: Creio que isso fica um pouco evidente na leitura, mas é uma falha de minha parte, um cacoete sociológico da primeira fornada de meus trabalhos, que tento corrigir nos trabalhos posteriores. 

Pergunta: Há nos seus contos um certo descrédito nas relações humanas, que são decorrentes dos laços sociais. Em geral até as relações amorosas são frequentemente questionadas, talvez por trazerem em seu interior uma tensão. Há uma ligação direta entre as tensões sociais e as relações pessoais? 
Resposta: O “descrédito nas relações humanas, decorrentes dos laços sociais” vigentes, é uma atitude justa de todo e qualquer observador (que também é o sujeito e o objeto, no processo) da vida em geral nos dias que correm. Pois a chamada vida social está nas mãos de uma classe dirigente egoísta, constituída de figurões que se desesperam no mar revolto de um mundo caótico e, burros e malvados, agarram-se numa tábua de salvação que é a própria besta do apocalipse, a Ganância. Num cenário assim constatado, de temporal iminente, as próprias relações amorosas perdem o fio da meada de uma convivência estável, amistosa e salutar. E aí vem o sado-masoquismo das outras relações para violentar a sensualidade do amor. 

Pergunta: Quanto à forma de seus contos, a maneira como são estruturados. Há uma explicação explícita em construir o conto fora dos padrões estéticos estabelecidos? 
Resposta: A preocupação é necessária em toda intenção e em toda ação criativas. Pode até parecer um recurso de autor sem estilo (que o Millôr Fernandes diz ser – e não é), a procura de formas que agasalhem e apresentem seus conceitos. Os primeiros grandes autores da história não precisaram lançar mão desse artifício, pois eram pioneiros num território virgem e por mais que repetissem não estariam cansando na repetição. Mas depois de alguns séculos de tratamento lingüístico da temática da vida, o terreno ficou meio batido, o monte de lixo dos clichês avolumou-se – e o escritor, para não cansar a beleza do leitor e também para satisfazer o próprio ego, tem que se virar para urdir variações de narrativas e de descrições. Escrever um conto, um poema, pode até ser uma tarefa simples, de fácil execução, para quem nasceu com a estrela na testa. Para um simples mortal como eu, a tarefa é bem complexa – e tenho, como disse, que me virar. E nada de sofrer o desestímulo de quem diz que tudo já foi dito. Se há o estímulo latente e provocativo dentro de nós, é porque ainda não vimos da missa a metade: a outra metade está por dizer, de agora em diante. 

Pergunta: Por que a excessiva “enumeração” dentro de seus contos? 
Resposta: Uma tentativa de escapar da linguagem torrencial e atingir uma síntese através da sugestão dos assuntos e não da explanação deles. Um erro certamente, do qual me penitencio, principalmente depois de aprofundar-me na leitura de Proust e de Guimarães Rosa, autores que fazem dos detalhes jóias da síntese poética. Sempre nutri certa aversão pela extensão do que pode ser encurtado (daí talvez a minha fascinação pelo texto de poesia e pelo de teatro) e assim jogava a lista temática (as enumerações) para o leitor desenvolver a seu gosto. Hoje, se não abomino de todo o recurso, prefiro aceitar o desafio de encher lingüiça com fios de ouro, como fazem os grandes autores, mesmo sem ter obtido a concessão das minas e das grupiaras. 

Pergunta: Para o Sr., a literatura é uma função? E qual seria esta função? 
Resposta: A literatura prescinde de funções. É uma prenda humana, das melhores. Algo muito humano, a rolar intemporalmente no espaço, do ser humano para o estar humano. Prescinde de funções (a não ser quando defende a si mesma no afã de fazer o bem sem olhar a quem). 

Pergunta: De onde brotam suas narrativas? Elas são construídas a partir da memória? Ou da oralidade? Resposta: da memória, esta caixinha de consultas e de surpresas, de música e lágrimas, este computador gratuito que cada pessoa dispõe ao seu belo prazer, para conjurar a solidão, para suscitar novas vivências. Deseja-se, por isso, que as crianças de hoje não sejam tolhidas em seus movimentos, nem sitiadas em seus apartamentos (apertamentos), nem distanciadas do parque de diversão da natureza, esse contraponto benéfico ao parque de diversões da indústria cultural, que até pode ter seus encantos, mas não tem vida própria nem causa surpresa nem suscita a renovação do estoque de emoções e vivências. As minhas memórias têm mais raízes no solo fértil do meio rural do que na pavimentação esterilizante do parque industrial que é todo e qualquer centro urbano da atualidade. 

Pergunta: Suas narrativas se prendem ao “factual”, ao “registro”, ao “documento”? 
Resposta: Prendem-se mais à tentativa de exprimir sensações recalcadas e filtradas no ajuizamento dos valores culturais de minha formação. A tentativa é temerária, pois o que vem quente para o autor muitas vezes chega frio para o leitor. Mas creio que o apego ao “registro” e ao “documento” seria uma opção por receber o material um pouco frio e tentar esquentá-lo depois, o que certamente aumenta o risco de frustração para o autor e para o leitor. São atalhos talvez enganosos no percurso ambíguo. 

Pergunta: Qual é o “pano de fundo” de suas narrativas? 
Resposta: O passado de minha vida, que é uma vida simples e modesta, circunscrita no âmbito das exterioridades, e livre e dilatada no âmbito das interioridades. Qualquer vida (a não ser nos casos patológicos) tem a mesma potencialidade e pode ter a mesma destinação. Creio que até já foi dito e repetido que cada ser humano resume todos os seres humanos, e que todo arraial é uma miniatura do cenário ampliado do mundo físico de nosso planeta. Assim, depois de escrever dezenas de livros aproveitando esse pano de fundo, sinto que ainda poderei escrever outras dezenas, sem esgotar as minas gerais dos personagens e dos cenários. 

Pergunta: Há no interior de suas narrativas humor, erotismo e, principalmente, crítica social? Como unir estas três vertentes? 
Resposta: Gostaria muito de reunir estas três grandes virtudes e atrelá-las nesse saco de dormir e de acordar que é qualquer livro de boa qualidade. Mas é difícil. Mas é necessário. O humor, meu Deus, Millôr Fernandes já dizia que é a mais pura e alta poesia. Para ele Drummond era um grande poeta porque era, também, um grande humorista. No meu caso, sinto dizer que isso fica apenas na vontade. O erotismo, meu Deus, é uma nuvem na qual consigo voar um pouco melhormente, é um belo oceano de águas doces, no qual posso exercitar e dessedentar, para o bem do corpo e da alma. E quanto a crítica social? Já esteve mais perto da preocupação literária, não? É parte integrante da vida de qualquer homem de bem e deve participar do chamado banquete das musas nem que seja de forma indireta, um pouco despistada aqui, um pouco alarmante ali e assim por diante, como se diz... Afinal, quem não se indigna diante da indignidade...? 

Pergunta: A menção sexista não é muito recorrente em seus textos? 
Resposta: É como muitas outras, possivelmente contextualizada, como muitas outras. Não visa incorrer no truque da “facilidade” expressional e cativar o leitor, expondo claramente assuntos velados e tradicionalmente tratados no envoltório preconceituoso dos tabus sociais. Evidentemente qualquer autor tem o maior prazer de pesquisar e escrever sobre o prazer da sensualidade (digo sensualidade e não meramente sexualidade) que nos remete ao princípio vital não apenas da reprodução, mas principalmente da vitalidade orgânica e psíquica, que, juntamente com o pão e a religião, perfazem a belíssima trindade que nos salva da penúria e da apatia numa sociedade cheia de desvios, como a nossa.  
Pergunta: Sua ficção posterior aos contos de “Aço Frio de Um Punhal” segue a mesma linha formal/ conteudística ou apresenta alguma diferenciação? Resposta: Ninguém foge dos próprios passos, nem pode plagiar a si mesmo, indefinidamente. Depois do “Aço Frio de Um Punhal” não publiquei outro livro de ficção, mas revisei os contos de “A Cabeça de Ouro do Profeta” e, perdendo o temor da linguagem torrencial, escrevi dois romances em prosa ( “A Bacia das Almas” e “O Dia do Casamento”), uma tetralogia em versiprosa (“Monólogo e Pranto”, “Por Que Choras, Saxofone?”, “Barra Funda – a Evaporação dos Paradigmas” e “Apenas Um Coração Solitário”), tentando assim retomar o fio há muito cindido da narrativa versificada, que era a coqueluxe dos autores e leitores mais antigos. Escrevei mais dois livros de contos (“Dois Patinhos na Lagoa” e “Contos do Apocalipse Clube”), além de algumas peças teatrais e uma coleção de poemas, que estou sempre revisando. Todos os trabalhos estão inéditos. Por que estão inéditos? Sei não, mas tenho a impressão que as editoras hoje, só publicam autores bafejados pela mídia. Coisa do neoliberalismo da globalização? Sei não. 

Entrevista concedida por Lázaro Barreto em 14/09/99.

quinta-feira, março 09, 2006

A FAMÍLIA OLIVEIRA BARRETO - Genealogia

Genealogia, Notas e Comentários – Edit, Express Artes Gráficas, Divinópolis, 2005.  

Fragmentos: 

Página 125: “A maior dificuldade da pesquisa genealógica reside na chamada descendência matrilinear, uma vez que o parentesco através da mãe foi, até recentemente, menosprezado socialmente. A maioria dos nomes de mulheres que pesquisamos surge nos registros sem a menção do sobrenome de família. Um amigo dizia uma vez, rindo, quando eu lhe contava a dificuldade de saber a descendência pelo lado feminino: “Toda mulher é parente de tatu”. E, na minha dúvida, ele emendou: “Todas tem o Jesus no sobrenome. É igual tatu no buraco, acertado pela fisga do caçador: ele emite um som parecido com o grito um pouco rouco e assustado da palavra JESUS”. Parece brincadeira, mas é a pura verdade. Uma multidão de Fulana Maria de Jesus, Sicrana Maria de Jesus, Beltrana Maria de Jesus. (...) O leitor pode imaginar a dificuldade diante de uma relação de descendência de uma família de trezes filhos, entre os quais pelo menos cinco são mulheres. Se soubermos com quem se casaram, ainda bem, temos uma pista. Mas se não sabemos, como saber então os nomes dos filhos se eles vão assinar os sobrenomes dos pais e não o sobrenome por assim dizer fantasioso da mãe?” Página 130 (As Primas da Juventude”): “O nome é a forma, o ser é o conteúdo às vezes um fica aquém do outro (marta eloína odília heloisa irene) Às vezes um suplanta o outro (maria eponina gislaine olga) às vezes chegam juntos à mesa do jantar quando a poesia e a musa equilibram-se nas trilhas e ladeiras e pinguelas da roça nos morros e baixadas da estiva e do lavapés nas grimpas e vazantes da cachoeirinha do bom sucesso nas praias e quebra-corpos da lavrinha. O leitor pode ficar cético quando eu citar as franciscas as josefas as arcângelas e escolásticas pois devia vê-las ao vivo da força no garbo da sublimação no tempo das charruas e doçainas no ciclo das obnubilações, diante ou debaixo do pé de bilosca e da parreira de uvas no respaldo da caçoada dos outros longe dali nas noites de lua cheia do arraial nos dias amoitados do azul da alma. Cada uma tem sua tecla sua fala sua escrita seu murmúrio virente caricioso (o amor-em-pencas, os lemas idílicos) sei não mas nunca soube aliterar os estribilhos preliminares nem mesmo colher e guardar os cheiros afrodisíacos das axilas e virilhas para não falar nas outras flores. O leitor precisava conhecer a secular pré-existência das flores-musas chamadas estefânia percília virgínia anna rosalina cândida mirafélia e clarundina o leitor precisava conhecer e nelas se reconhecer no vai-e-vem da gangorra no galho do cajueiro: na ida, o horizonte do mundo na volta, o horizonte da casa a parte feminina de deus e de tudo que existe a parte feminina do homem e de tudo que ama ah o pior de tudo é não saber carregar o amor do olhar!” Pág.278: “A Genealogia é um ponto importante na História Humana, tanto que o Novo Testamento das Escrituras Sagradas estampa logo nas suas primeiras páginas a relação da descendência davídica de Jesus. E mesmo muito depois, na chamada Idade Média, um dos objetivos das Cruzadas era não só expulsar os sarracenos de Jerusalém, como restaurar seu Templo e recolocar em seu trono um descendente de David – e assim cumprir a promessa de paz profetizada no Velho Testamento das mesmas Escrituras.”

terça-feira, março 07, 2006

LAPINHA DE JESUS

De Lázaro Barreto e Adélia Prado – texto de Natal inspirado nas esculturas de um Presépio Brasileiro de Frei Tiago Kamps – Editora VOZES de Petrópolis (RJ), 1969. 

Dois fragmentos de LB: 

1 – O Belo Menino no Presépio. Não estou levando presentes; estou trazendo. Hoje todas as pessoas ganharam Dele, que veio consolar os aflitos, libertar os cativos, recobrar a vista dos cegos, emancipar os oprimidos, e refazer as instituições e leis por meio da mudança do ser humano. As pastorinhas estão visitando os presépios e as lapinhas; e além delas os mocorongos, as folias de reis, a zabumba e o turundum, o carimbó e o marambiré, os pastoris e as cheganças, os fandangos e os quilombos, os caboclinhos, os bainanás e as taieiras, o catopé dos negros, os reis-de-boi e o maracatu, o guaiano e o lundu, os ternos-de-reis e as cantadeiras, os cacumbis e os santos-reis, a bernúncia e a jardineira e o bumba-meu-boi: é a festa no mundo inteiro do Brasil, pois que se posso levar, vou levar a Deus o meu AMOR AO PRÓXIMO. 

2 – Ecos do Vietnã Estava aqui uma tapera, uma perseguição de malefícios no chão que se esburacava ou subia no ar e depois revirava a vegetação e trazia as nuvens para dentro da palhoça e os tiros e canhões para o céu aberto da batalha campal. Até as árvores brigavam entre si, abrindo fogo nos fantoches da noite em pleno dia. Atrás da ex-linda armação das orquídeas os olhos da morte camuflavam estúpidos alvos, disparando chumbos inflamados. Eu me surpreendia com medo até de um besouro: podia ser um veneno metálico. E não raro, quando um pássaro pousava ou uma fruta caía, a nesga do chão espoucava, qual seco vulcão. Encolhido no medo, escondido no oco do pau-terra, perguntava: por que essa guerrilha toda? os homens que vem do norte e os que vem do sul: por que vem do norte e do sul? Por que brigam assim como ex-rinocerontes? Depois de tanto tempo, de repente...: De repente a luz macia dá sumiço à dor de cabeça. E numa luz de nova força todo meu corpo se punge. E os anjos começam a passar, endireitando o chão e a relva, revirados; e as árvores, retorcidas. Eu que apartava o gado, parei na porteira. Não aparto mais, nunca mais. E dizia o que ouvia e ouvia o que dizia: “Venha o teu reino, tua vontade seja feita na terra como no céu”.

segunda-feira, março 06, 2006

FORTUNA CRÍTICA 2

1 – Aço Frio de Um Punhal, Contos de Lázaro Barreto editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1986. Carta recebida do escritor Oscar D”Ambrósio, datada de 23 de janeiro de 1991, com os seguintes termos: “Prezado Lázaro: Admirador há algum tampo de seu trabalho, envio o material em anexo para que o senhor veja as reflexões que os seus contos, específicamente “Os Círculos do Abismo”, me suscitaram”. Seguem 28 páginas datilografadas, reunidas aqui, intelgralmente, conforme abaixo: O EDIFÍCIO INTERTEXTUAL (Análise do dialogismo entre a Divina Comédia de Dante Alighieri e o conto “Os Círculos do Abismo” de Lázaro Barreto. – Oscar D’Ambrosio. ESQUEMA 1 – Intertextualidade: uma característica do pós-moderno. 2 – A Divina Comédia. 3 – “Os Círculos do Abismo”. 4 – Intertextualidade: paródia, paráfrase e estilização 5 – Conclusão: intertextualidade, tônica da relação Dante-Lázaro Barreto. 6 – Notas 7 – Bibliografia. 1 – Intertextualidade: uma característica do pós-moderno. Em O Que é Pós-Moderno (1), Jair Ferreira dos Santos apresenta O Nome da Rosa, de Umberto Eco, como uma ficção tipicamente pós-moderna. O romance é situado na Itália medieval, sendo escrito como uma narrativa policial, contando os crimes, a violência sexual e a destruição de um mosteiro. As personagens buscam um livro: a parte perdida da Poética, de Aristóteles. Quais seriam as características pós-modernas da obra de Umberto Eco? A primeira seria a volta ao passado (Itália, 1327) A segunda: utilizar uma forma antiga e gasta (o romance histórico). A terceira: usar a narrativa policial (gênero de massa). A quarta: a intertextualidade (referências ao romance histórico, à narrativa policial; e o fato de ser um livro sobre outro livro – a Poética. A quinta: o ecletismo (misturar o histórico documental ao divertimento – o policial, a ironia). A sexta: a paródia ( o nome da rosa é um pastiche de romance histórico, o gênero é retomado de forma lúdica. A sétima e última: a entropia (desorganização) do mosteiro, algo que reflete a desorganização da sociedade pós-moderna. Por outro lado, constatamos que a intertextualidade está cada vez mais presente na arte, na publicidade e nas campanhas eleitorais para o governo do Estado. Entre os contistas contemporâneos, há dois exemplos de autores que tornam a intertextualidade o fio de prumo de seus textos, repletos de citações, referências implícitas ou explícitas a poetas, romancistas e músicos do passado e do presente. Uma característica do pós-moderno não seria revisitar o passado? Realizar-se-ia uma avaliação do que foi até hoje produzido para, a partir daí, buscar-se um outro caminho? Entre os novos contistas, merece destaque Lázaro Barreto: Aço Frio de Um Punhal (2), seu livro mais recente, é composto por 31 contos. Neles há citações a Dostoievski, Drummond, Murilo rubião, Maria Bethânia, Autran Dourado e Guimarães Rosa. Escolhemos o conto “Os Círculos do Abismo” (3) para análise porque trata-se de uma recriação de uma das maiores obras da literatura universal: A Divina Comédia (4), de Dante Alighieri. O objetivo deste trabalho será o de mostrar a intertextualidade presente entre o conto de Lázaro Barreto e o poema de Dante. Além disso, veremos de que forma podemos considerara o texto do contista mineiro como pós-moderno e, até que ponto, a intertextualidade é uma característica da literatura posterior ao modernismo. 2 – A Divina Comédia. A Divina Comédia é considerada de forma unânime uma das obras-primas da literatura universal. Compreende três partes: O Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Cada parte contém 33 cantos,compostos entre 1307 e 1321. O poema de Dante une a alma medieval e o espírito clássico. Não se limita a glorificar o amor de Dante por Beatriz, mas torna-se um poema cósmico pela variedade e quantidade de símbolos que traçam uma viagem mística no país da morte. Viagem capaz de englobar diversos aspectos do Homem e da Humanidade. Além disso, o poema é uma crônica política em que são exprimidas as idéias de Dante a respeito de Florença e das vinculações do poder espiritual (Igreja Católica) ao poder temporal (governo da Itália). Florentino, Dante Alighieri chegou a ser magistrado em sua cidade natal. Porém, seu posicionamento político valeu-lhe o desterro. No plano amoroso, apaixonou-se pela adolescente Beatriz, que morreu subitamente, deixando o poeta imerso em terrível tristeza. esses dois fatos (o dsterro e a morte de Beatriz) são fundamentais para penetrarmos na Divina Comédia, pois boa parte das personagens da obra são contemporâneas do autor. Por isso, há numerosos diálogos que dizem apenas respeito ao período que Danteviveu, tendo pouco valor para o leitor atual. Em verdade, não conseguimos hoje oprazer dos contemporâneos de Dante na leitura do poema, pois o nosso deleite é roubado pelas notas esclarecedoras que nos são hoje necessárias ao tomar contato com a obra. Mesmo assim, o poema é uma grande alegoria que funda os princípios da língua italiana, além de expor toda uma concepção de universo e da existência humana antes e depois da vida. Nossa pretensão aqui não é de interpretar o poema de Dante mas apontar elementos que serão de interesse para comprovar a intertextualidade entre A Divina Comédia e “Os Círculos do Abismo”. Narrada em primeira pessoa, o poema inicia-se em selva escura, da qual Dante está impedido de sair devido a três animais: uma pantera, um leão e uma loba.O poeta pede socorro a um homem, que revela sua identidade: “fui poeta e celebrei o filho justo de Anquises, que a estas plagas veio um dia, depois que Tróia foi queimada a custo. (5). Trata-se de Virgilio, autor da Eneida, obra em que narra as aventuras de Enéias, “filho de Anquises”, que funda na Itália, após a derrota em Tróia, as bases do Império Romano. O poeta subira ao nível dos vivos a mando de Beatriz. Espliquemos melhor: ouvindo os apelos de Dante por ajuda,beatriz, apaixonada pelopoeta em vida, deixara o Paraíso e descera ao Limbo,primeiro círculo do Inferno, para suplicar a Virgilio que ajudasse Dante. O poeta grego deixa o Limbo e encontra Dante, levando-o a uma viagem pelo Inferno e pelo Purgatório. Virgilio, porém, não pode entrar no Paraíso por residir no Limbo. Às portas dessa terceira etapa da viagem, deixa Dante em companhia de Beatriz, que guia seu amante pelo paraíso. Finda a viagem, Dante volta ao mundo dos vivos. Surge, então, uma dúvida. Por que Dante é guiado por Virgilio? Temos aqui um exemplo de intertextualidade do próprio Dante. Para guiar o autor de A Divina Comédia no Inferno, era necessário alguém que já houvesse descido ao reino de Lúcifer e, mais, alguém de boa índole para cumprir a missão a contento. Virgilio é escolhido por preencher esses requisitos. Primeiro: era um grande poeta, logo seria respeitado por Dante. Segundo: escrevera a Eneida, poema em que, no canto VI, seu protagonista, Enéias, desceu ao Inferno. Logo Virgilio descreve a viagem de Enéias às profundezas da terra, sinal de que as conhecia muito bem. Além disso, na concepção de universo elaborada por Dante,Virgilio situar-se-ia no Limbo (primeiro círculo do Inferno) por ser pagão, ou seja, não ter conhecido o cristianismo. O próprio Enéias, encontra-se no Limbo com Virgilio;enquanto as figuras do paganismo consideradas pecadoras mais graves são colocadas por Dante em círculos mais profundos do Inferno. Alguns comentários são necessários. diversos comentadores de A Divina Comédia (6) auxiliam-nos a penetrar no universo dantesco. Os primeiros versos do poema são essenciais: A meio caminho desta vida achei-me a errar por uma selva escura quando a via veraz deixei, perdida (7). O “meio caminho da vida” corresponderia aos 35 anos, momento, para Dante, de reflexão e avaliação da própria vida e da história da humanidade. A “selva escura”nada mais é do que o pecado em oposição a “via veraz”, virtude. Quanto aos três animais que impedem Dante de deixar a”selva escura”, duas interpretações são encontradas. Uma, de caráter mais universal, confere aos animais a simbologia de pecados humanos: a luxúria (pantera), a violência (o leão) e a avareza (a loba). Outros consideram esses animais como símbolos de Florença, da Casa de frança e da Cúria Papal, respectivamente. O conto de Lázaro Barreto que será aqui cotejado com A Divina Comédia faz alusão apenas à visita de Dante ao Inferno. Logo, visto o conjunto do poema do autor italiano, passemos para os círculos do Inferno descritos por Dante: Vestíbulo do Inferno: situam-se aqueles que não podem entrar no Inferno por não possuírem faltas graves, mas as que cometeram não lhes permitem ficar no Paraíso. São os covardes e indecisos, como o Papa Celestino V. Primeiro Círculo: após cruzar o Rio Aqueronte com o barqueiro Caronte chega-se ao Limbo. Lá estão as crianças mortas sem batismo e as grandes figuras do paganismo: Homero, Horácio, Ovídio, Lucano (merecem tratamento especial pelas suas obras), Enéias, Heitor, Sócrates, Platão, Demócrito, Euclides, Ptolomeu, Sêneca e Aristóteles, entre outros. Segundo Círculo: local dos luxuriosos, como Cleópatra,, Helena, Páris e Dido. Terceiro Círculo: os pecadores por intemperança. Estão sob chuva eterna, sendo dilacerados por Cérbero (monstro com três cabeças; metade cão, metade homem). Quarto Círculo: avaros e pródigos. Rolam pesos enormes e as almas se injuriam mutuamente. Quinto Círculo: iracundos. estão mergulhados no lago Estige. Sexto Círculo: situa-se na Cidade de Lúcifer, assim como os três seguintes, guardada por anjos rebeldes, ou seja, demônios. Nele estão os heréticos, jazendo em sepulcros inflamados. Em um deles está o Papa Anastácio II, que explica a distribuição dos homens, após a morte, pelos Círculos do Inferno. Sétimo Círculo: possui três giros e é guardado pelo Minotauro (metade homem/metade touro). No primeiro giro, estão os tiranos, assassinos e salteadores submersos em sangue fervente. Entre eles, Alexandre da Macedônia, Dionísio, tirano de Saracusa, Átila, o Rei Pirro e Sesto Tarquínio. No segundo giro, estão os suicidas (transformados em árvores) e os dissipadores (perseguidos e estraçalhados por cães ferozes. No terceiro giro, os violentos contra deus (blasfemadores), contra a arte e contra a natureza; todos castigados por uma contínua chuva de fogo. Os sodomitas (violentos contra a natureza) recebem ainda outro castigo: manter-se em perpétuo movimento. Oitavo Círculo: é dos fraudulentos. Divide-se em dez valas. Virgilio e Dante são introduzidos neste círculo por Gerión, símbolo da fraude, com seu rosto humano e seu corpo de serpente alada. Na primeira vala, estão os rufiões e sedutores como Jasão (seduziu Isifília e enganou Medeia. Seu castigo é o açoitamento eterno por demônios). Segunda vala: aduladores, imersos em fezes. Terceira vala: simoníacos (traficantes do sagrado). São enterrados de cabeça para baixo com os pés envolvidos em chamas. Isso ocorre com três papas: Nicolau III, Bonifácio VIII e Clemente V. Quarta vala: Mágicos, adivinhos e embusteiros. Seus rostos estão voltados para as costas. Aqui está Tirésias. Quinta Vala: traficantes de cargos e influências: são os trapaceiros, venais e corruptos condenados a permanecer em um poço de betume fervente. Sexta vala: hipócritas revestidos de capas de chumbo. Um deles é Caifaz, aquele que aconselhou os fariseus a condenarem Jesus. Sétima vala: ladrões. São picados por serpentes, entram em combustão, transformam-se em cinzas e renascem. Oitava vala: conselheiros fraudulentos envoltos em chamas. estão aqui Ulisses e Diomedes pelas ações na Guerra de tróia. Nona vala: Promotores de cismas religiosas e semeadores de discórdias entre povos e pessoas. O castigo (a contínua mutilação a golpes de espada) cabe a Maomé. Na décima vala estão os falsários de pessoa, de dinheiro e de palavra. Sofrem de loucura agressiva, hidropisia e febre ardente, respectivamente. Nono Círculo: os poetas são para lá levados pelo gigante Anteu. O círculo situa-se nas águas geladas do Cocito e abriga os traidores em quatro giros. No primeiro giro (Caína) estão os traidores do próprio sangue, como Caim e o Rei Artur. Segundo giro (Antenora): traidores da pátria. Aqui estão Antenor (traiu Tróia) e Ugolino (traidor de Florença). Terceiro giro (Toloméia): traidores de amigos ,como Tolomeu. Quarto giro (Judeca): traidores de benfeitores e chefes. Os residentes deste nível estão embutidos no gelo e imobilizados, excetuando Judas, Bruto e Cássio, torturados pessoalmente pelas três cabeças de Lúcifer: uma rubra (ódio), uma branca (impotência) e outra negra (pecado). O Inferno de Dante segue a concepção de universo de Ptolomeu, possuindo a forma de um cone invertido com base na superfície da terra e o ápice voltado para o centro. Assim, a área de cada círculo é menor em relação a anterior. Há ainda uma propriedade dos mortos em relação. Eles podiam ler os pensamentos do poeta italiano de modo que o autor da Divina Comédia não necessitava fazer perguntas, bastando que as pensasse para ser logo atendido. Cabe também uma explicação sobre a concepção dantesca do universo. Nela, o homem teria a opção de escolher em sua vida terrena, o caminho do bem ou do mal. Após sua morte, seria julgado e, de acordo com suas atitudes, enviado para arder no fogo eterno (Inferno), para purgara seus pecados e ascender ao Paraíso (Purgatório) ou para o próprio Paraíso, vivendo junto à Santíssima Trindade. Feita essa visão geral do Inferno dantesco e da estrutura da Divina Comédia, passemos para o conto “Os Círculos do Abismo”, de Lázaro Barreto. 3 - Os Círculos do Abismo. No meio da idade de minha vida vi-me numa noite escura a enlouquecer-me interiormente, na dúvida se a claridade podia estar adiante ou se a perdera no passado, para sempre. (8). Assim se inicia o conto de Lázaro Barreto. A narrativa é em primeira pessoa e a situação inicial é idêntica à da Divina Comédia. Um homem no meio da idade da vida está imerso na escuridão. Porém o narrador do conto não encontrará Beatriz no Paraíso. Seu trajeto será outro. Ele espera um guia que o ajudará a encontrar seu filho de oito anos de idade. Se consideráramos que todo desejo provém de uma carência, notaremos que a ausência do filho será o fator que levará o narrador a percorrer ambientes estranhos e desconhecidos em busca do seu objeto de amor. Ao constatar a ausência do filho, desespera-se e recebe um telefonema dizendo para procurar a criança “no inferno”. Liga então ao pai, que lhe manda o guia Virgilio, “uma pessoa de confiança, que conhece as coisas”. Juntos o narrador e Virgilio começam a percorrer os arredores da cidade, passando por locais que correspondem, ao menos em número, aos círculos do inferno de Dante. Vemos como: O capão é uma espécie de Vestíbulo do Inferno: Lá estão pessoas que purgam culpas, sofrendo de hemorragia eterna,como Lyndon Johnson, o presidente americano responsável pelos bombardeios no Vietnã. O distrinto industrial. Patrões e capatazes cruéis. Aqui estão as reencarnações de Hitler e Mussolini em um caso de monocefalia, em cadeira de rodas. A favela do Morro seco. Aqui está a reencarnação de Joe McCarthy (“dedurismo político”). Contornando o pântano junto à favela, aparecem reencarnações de Stalin, Franco, Nero, Onassis, Maquiavel e Napoleão Bonaparte, entre outros. Virgilio sugere ao narrador que ligue para casa. A esposa diz que telefonaram avisando que “o menino estava em um abismo mais profundo”. O narrador e Virgilio prosseguem a jornada. Na Zona do Meretrício, Virgilio identifica Custer, o Marquês de Sade, os donatários de capitanias e cabos eleitorais do coronelismo republicano. O Hospital é o outro local em que os poetas buscam o menino. No Orfanato, a busca continua. No Reformatório,encontram reencarnações de Herodes, Átila, Torquemada,Goebbels e Walt Disney. Leprosário. O narrador desmaia, mas antes contempla o que em “tempos anteriores” foi o Joaquim Silvério dos Reis; além de antigos exterminadores. Penitenciária. Há diversas celas dispostas em círculos. Todas especificam as categorias dos prisioneiros que contém. Na cela dos algozes de crianças “há nove homens hediondos”, que Virgilio identifica como ex-carrascos da Gestapo, ex-membros da Ku-Klux-Klan e ex-verdugos do tempo da Cortina de Ferro na Rússia. Há uma cela para os seqüestradores e chantagistas e uma terceira para os criminosos primários, os homicidas passionais e os dilapidadores do erário público. Não encontrando seu filho, o narrador espera um conselho de Virgilio. Este lhe diz que apenas percorreram metade do caminho, faltam ainda “os asilos, hospícios, depósitos de presos, lares-infernais, pronto-socorros, trens de ferro suburbanos, casas populares, vilas vicentinas...”. O narrador decide voltar para casa na esperança de lá encontrar o filho assistindo a uma série de filmes violentos na televisão, “que tão bem se inserem no contexto deste mundo que acabo de percorrer nove vezes”. A alusão do percorrer “nove vezes” é um citação clara dos nove círculos do Inferno de Dante. Tanto na Divina Comédia (Inferno) como no conto de Lázaro Barreto, há descrições terríveis de padecimentos humanos. Porém, enquanto em Dante as almas são castigadas após a morte pelo que fizeram em vida, o contista mineiro apresenta a própria vida como o inferno .Seriam mais felizes os que nele não estão? As penas cometidas em vida serão pagas em sucessivas reencarnações, forma de purgar as culpas. Sob este aspecto, a vida possui um caráter semelhante ao Purgatório de Dante, local em que os indivíduos pagam por seus pecados, mas com a certeza de ascenderem ao Paraíso. Notamos assim uma diferente concepção religiosa entre os dois textos. Dante adota o cristianismo, considerando a vida como uma oportunidade de desenvolver as potencialidades individuais. De acordo com o desempenho, após a morte a alma receberá o que merece: paz eterna, purgação de culpas ou sofrimento eterno. em”Os Círculos do Abismo”, Virgilio adota outra concepção religiosa: “Os bens materiais, esses Deus empresta aos homens para prová-los no processo de purificação de suas almas. todo homem pode ser feliz e bom, mas se prefere ser apenas feliz, a experiência de Deus falha nele, e ele terá de volver à terra em condições adversas, para nova provação”. (9). Concluímos daí que há dois grupos: os que são apenas felizes; e os felizes e bons. Os primeiros voltam à terra para nova provação – e os segundos? Virgilio diz mais adiante que não há morte: “Ele (o filho do narrador) está em alguma parte e vivo, como já disse, mesmo quem morre está vivo”. (10). Para concluir no fim do conto: “Onde ele está, está aprendendo a viver”. (11). O próprio narrador, ao dizer que percorrera o mundo nove meses, permite duas leituras de sua afirmação: por um lado, há uma intertextualidade com A Divina Comédia, por outro, a confissão de viver sua nona encarnação em um mundo violento. Ao invés de construir um inferno como projeção dos pecados terrenos, Lázaro Barreto mostra o mundo como um inferno, sendo que nele estão condenados a sofrer mais aqueles cujas culpas são maiores. Junto a isso, há todo um juízo de valor exercido em relação a história moderna e universal. Da mesma forma que Dante, Lázaro Barreto constrói seu conto de forma a denunciar aqueles que maiores pecados cometeram contra a humanidade e contra o país. em seu poema, Dante critica diversas figuras de Florença que lhe eram contrárias politicamente. O mesmo fez o contista mineiro com personagens execráveis da nossa história, como Joaquim Silvério dos Reis. Na conclusão deste trabalho, retomaremos estas colocações preliminares. Antes, porém discutir os conceitos de paráfrase, paródia e estilização que também serão utilizados mais adiante. 4 – Intertextualidade: paródia, paráfrase e estilização. A pintura voltou-se para si mesma no momento em que a máquina fotográfica tornou-se um instrumento para reproduzir a realidade. Se considerarmos o signo ideológico com a propriedade dialética de refletir e refratar o real, constataremos que, na segunda metade do século XIX, a pintura passa muito mais a refratar o real do que a refletir o mundo circundante. Desse modo a função poética e a função metalingüística sobrepõem-se, deixando a função referencial em segundo plano. Abandonando a referencialidade e assumindo seu caráter de re-apresentação do real, a pintura passa pelos imprassionsitas, por Cézanne e chega ao cubismo e ao abstracionismo, momento em que a referencialidade desaparece. Algo similar ocorre com a literatura à medida que o jornalismo se desenvolve. A literatura também vai se distanciando do referente para voltar-se sobre si mesma. Nesse momento, a intertextualidade ganha importância. Em Paródia, Paráfrase & Cia. (12), Affonso Romano de Sant’Anna procura estabelecer uma tipologia para a intertextualidade. A relação entre textos dar-se-ia através de graus de desvio de um texto segundo em relação a um primeiro (matriz). A um desvio mínimo, chamamos de paráfrase. O desvio tolerável é uma estilização e o desvio total recebe a dominação de paródia. A paráfrase é uma intertextualidade de semelhanças. Nela, há a condensação e o reforço do texto 1. Ocorre uma ritualização, uma conformidade. Por isso, o discurso autoritário utiliza a paráfrase. A propaganda nazista, o fascismo de Mussolini e o realismo russo baseiam seu discurso na repetição. Os desvios são mínimos. A re-afirmação do similar é a regra. A estilização possui um caráter mais subjetivo. O significado primário do texto 1 não é alterado, mas o texto 2 apresenta alterações. Há uma reforma em relação ao texto matriz, mas não uma era-criação, uma inversão de sentido. A inversão de sentido é característica da paródia. temos aqui uma intertextualidade de diferenças. Há um deslocamento e uma informação do texto 2 em relação ao texto 1. A paródia é essencialmente antropofágica, deglutidora, carnavalizante e polifônica. O termo polifonia é utilizado pela primeira vez por Bakhtin ao estudar Dostoievski. É exatamente a partir da distinção feita entre paródia e paráfrase por Tynianov e Bakhtin, que Sant’Anna realiza seu estudo. Leyla Perrone-Moisés também aborda a intertextualidade em “Textos Crítica e estrutura (13). O capítulo III dessa obra, intitulado “Crítica e Intertextualidade” demonstra que a literatura nasce na própria literatura, alimentando-se de si mesma em uma antropofagia constante em que, muitas vezes, a contestação do texto 2 em relação à matriz dá nascimento a uma grande obra. A literatura seria uma reelaboração ilimitada de formas e conteúdos. O estabelecimento de uma rede de sentidos de um texto 2 ocorre pela apropriação livre do texto matriz e pelo dialogismo de um texto com outro através dos “gramas leiturais” (Kristeva). A avaliação do passado é feita pelo re-escrever de textos antigos. A escolha de um texto para ser re-criado é um juízo de valor. Recria-se aquilo que merece ser re-escrito. A intertextualidade é a prova de que as obras não estão acabadas por si mesmas. Sempre permitem novas leituras pelo dialogismo que comportam. É através do dialogismo intertextual que a literatura se volta sobre si mesma e se reproduz continuamente. No momento em que Lázaro Barreto seleciona A Divina Comédia, ocorre um implícito juízo de valor do autor contemporâneo ao texto clássico. “Os Círculos do Abismo” é um texto que não se alimenta apenas de sua organização formal interna. Sua leitura exige o dialogismo (intertextualidade) com Dante. e esse dialogismo é o alimento da literatura. 5 – Conclusão: intertextualidade, tônica da relação Dante-Lázaro Barreto. entre o conto “Os Círculos do Abismo” e “A Divina Comédia” há uma intertextualidade inegável, que se torna bem clara no episódio dantesco do Inferno. Para esta análise, consideramos análogo a viagem do narrador do conto de Lázaro Barreto à do narrador da Comédia. Em ambas as obras, sujeito do enunciado e da enunciação se confundem. Ambas são narradas na primeira pessoa singular,ocorrendo ainda em ambas a identificação do narrador com o autor. Dante é chamado pelo seu nome durante a Comédia e Lázaro Barreto identifica-se como jornalista, atividade que exerceu de fato. Como já mostramos, o conto e o poema de Dante iniciam-se da mesma forma. Os narradores estão “no meio do caminho da vida”, e caminham nas trevas. Porém, enquanto Dante encontrará Beatriz, Lázaro não encontrará o filho seqüestrado. Ambos se igualam por um sentimento de desejo, de busca, de falta. Ambos terminam as narrativas em um estado mais elevado. Dante volta à vida após ouvir previsões sobre seu futuro e após o encontro com Beatriz. Lazão retorna ao lar com a esperança de encontrar o filho perdido e com a tranquilidade de não o haver encontrado nos locais infernais em que esteve. O inferno é, então, o ponto de contato das narrativas. Embora sejam apresentados de forma igualmente terrível os infernos ocorrem de forma distinta. Sua dimensão espacial é diferente. O inferno dantesco é um cone invertido em direção ao centro da terra. O inferno de Lázaro Barreto ocorre na superfície, em locais específicos do mundo cotidiano.Além disso, o inferno do poema é revelado depois da morte, enquanto todos nós estamos imersos nos inferno do contista mineiro. Se os narradores-protagonistas se equivalem, os seus companheiros de viagem também. Ambos chamam-se Virgilio e são muito sábio, capazes de responder qualquer pergunta formulada verbalmente ou não. A presença de Virgilio como guia na visita ao Inferno é uma alusão direta de “Os círculos do Abismo” à Divina Comédia. Se isso não bastasse, o Virgilio do conto de Lázaro Barreto cita diretamente alguns versos do poema de Dante “Não costumamos falar com eles, apenas olhamos e continuamos a andar. A misericórdia e a justiça os desprezam”. (14). Porém, há diferenças importantes entre os dois textos. Atinge-se o inferno dantesco após a morte em uma concepção católica da existência. Em contrapartida, o inferno de Barreto não passa de uma concepção existencial vinculada ao espiritismo e as doutrinas que acreditam na reencarnação de almas em diversos corpos e na ascensão da alma após diversos períodos de purgação de pecados. Nessa visão, o mundo não passa de um purgatório constante de almas em busca de um estágio mais elevado. O universo dantesco, como assinalamos, coloca as almas em três planos após a morte: o arder eterno; a purgação repleta de sofrimentos, mas com a certeza de alcançar o Paraíso; e o Paraíso, morada do Senhor. A apropriação realizada por Lázaro Barreto do poema lírico de Dante, não possui dimensão épica, mas apenas transplanta a concepção de inferno católica à concepção de inferno do espiritismo. De qualquer modo, as duas obras – o conto e o poema – realizam uma crítica aguda da sociedade e mostram claramente uma escala de juízo de valores. Dante e Lázaro Barreto colocam-se como juízes e dentro de suas narrativas avaliam seus antepassados e contemporâneos. Nesse aspecto, Dante é mais parcial, pois sua obra perde universalidade no momento em que detém sua atenção sobre personagens reais vinculados apenas as disputas políticas de sua cidade natal – Florença. Embora haja uma divergência quanto à religião tomada como modelo para elaborar os respectivos infernos, Dante e Barreto condenam aqueles seres da História Universal que cometeram atos de violência, abusaram do poder ou traíram seus amigos ou patrões. Vistas as diferenças e semelhanças, resta concluir se “Os Círculos do Abismo” realiza uma paródia,uma paráfrase ou uma estilização da Divina Comédia. Raciocinemos pelo método mais seguro:o da negação. O conto do Lázaro Barreto não é uma paráfrase do poema de Dante. embora haja uma citação direta da Comédia, a narrativa seja em primeira pessoa e o guia da visita ao inferno chame-se Virgilio; o desvio é mais do que mínimo comportado pela paráfrase. O narrador não busca uma amada (busca seu filho) e a concepção ideológica via-religião diverge: catolicismo em Dante; espiritismo em Barreto. O conto também não é uma paródia. O desvio não é total em relação à Comédia. Além dos elementos comuns que mencionamos no parágrafo anterior, há um juízo de valor que impregna as duas obras: o castigo àqueles que, de um modo ou de outro, contribuíram para a degradação do ser humano. O critério de julgamento é o mesmo. Certamente Dante colocaria Hitler, Mussolini e Franco no seu inferno, se os houvesse conhecido. O desvio total caracterizar-se-ia se os que sofressem no conto de Barreto fossem os considerados justos e dignos de residir no Paraíso dantesco. Aí sim, o desvio total aconteceria; a inversão de valores no julgamento de almas seria um elemento caracterizador de paródia. Preferimos, então, considerar o texto uma estilização. O desvio de um texto para outro é tolerável e deve-se ao fator religioso. Temos, em “Os Círculos do Abismo”, uma visão particular da Divina Comédia sob um enfoque vinculado ao espiritismo. A concepção básica das duas obras é a de realizar uma crítica aguda ao homem e aos pecados que o acompanham no decorrer da História. Para Dante, as almas que fizeram o mal, arderão no inferno. Para Lázaro, serão condenadas a viver outras existências até se purificarem. Para ambos o ser humano deve caminhar em direção a um aperfeiçoamento constante. Considerando o conto uma estilização, cabe agora, conforme nosso projeto inicial, caracterizar o texto de Lázaro Barreto como pós-moderno. Vejamos se ele preenche as características indicadas por Jair Ferreira dos Santos para O Nome da Rosa. Característica 1: volta ao passado. “Os Círculos do Abismo” não volta ao passado no plano da narrativa, mas evoca uma obra do passado: A Divina Comédia. Logo, a condição é preenchida indiretamente através da intertextualidade. Característica 2: utilizar forma antiga e gasta. O conto usa, através da intertextualidade novamente, o poema épico, forma gasta que é adaptada por intermédio do conto. Condição preenchida. Característica 3: usar um gênero de massa. O conto, conforme Alfredo Bosi, é a forma mais característica da literatura de massa atual. O ritmo dinâmico da sociedade capitalista exige leituras rápidas.Condição preenchida. Característica 4: a intertextualidade. Qualquer comentário seria redundante. Condição preenchida. Característica 5: o ecletismo. O conto de Lázaro mistura elementos históricos (personagens da História) ao ficcional (narrativa propriamente dita; busca do filho perdido no inferno terrestre). Condição preenchida. Característica 6: paródia. Jair Ferreira dos Santos utiliza o termo não da maneira de Affonso Romano Sant’Anna. Para o primeiro, paródia está vinculada à pastiche. O conto seria um pastiche de narrativa épica em versos que é a Divina Comédia. Ao falar em paródia, J.F.S. deixa de lado o aspecto ideológico, que é a pedra de toque do conceito de Sant’Anna. em termos de gênero literário, a paródia ocorre (poema épico para conto); ao nível ideológico, como vimos, o desvio é tolerável. Característica preenchida. Característica 7: entropia. Ao caracterizar a própria terra como infernal em diversos aspectos, o contista mineiro mostra a desorganização da sociedade pós-moderna. Característica preenchida. Assim, acreditamos ter reunido material e argumentos suficientes para classificar, dentro dos critérios explicitados nos capítulos 1 e 4 deste trabalho, o texto “Os Círculos do Abismo”, como uma estilização da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Além disso, sendo a estilização uma gradação da intertextualidade e esta uma característica do pós-moderno, podemos considerar o conto de Lázaro Barreto como pertencente à pós-modernidade. Além de tudo, a leitura do conto “Os Círculos do Abismo” confirma a afirmação de Leila Perrone-Moises de que a literatura nasce na e da literatura. Pela intertextualidade , um texto gera outro texto e dialoga com outros pelos “gramas leiturais” (Júlia Kristeva); erguendo um monumento que, tal qual no conto “O Edifício” (14), de Murilo Rubião, nunca pára de crescer. O objetivo é desconhecido. Os andares, novos textos. Os operários, escritores. 6- Notas: 1 – Jair Ferreira dos Santos. O Que È Pós-Moderno. São Paulo. Brasiliense, 1986.p.57. 2 – Lázaro Barreto. Aço Frio de Um Punhal.Rio de Janeiro, Guanabara, 1986. 3 – Idem, ibidem, pp.149-65. 4 – Dante Alighieri. A Divina Comédia. Tradução de Cristiano Martins. Belo Horiozonte. Itatiaia, EDUSP, 1976. 5 – Idem, ibidem.p.3. 6 – Entre eles, Cristiano Martins. 7 – Dante Alighieri op.cit.p.1. 8 – Lázaro Barreto, op.cit.p.149. 9 – Idem, ibidem, p. 153. 10 – Ibiden. p. 158. 11 – Ibiden. p. 165. 12 – Affonso Romano de Sant’Anna. Paródia, paráfrase & cia. são Paulo, Ática, 1985. 13 – Leila Perrone- Moisés. texto, Crítica e Escritura. São Paulo, Ática, 1978. 14 – Lázaro Barreto. op.cit. 163. 15 – Murilo Rubião. “O edifício” in O Pirotécnico Zacarias. 9 edi. São Paulo, Ática, 1984, pp.35-41. 6 – Bibliografia ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Integralmente traduzida, anotada e comentada por Cristiano Martins. belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1976. BARRETO, Lázaro. Aço Frio de Um Punhal. Rio de Janeiro, Guanabara, 1986. LISBOA, Luiz Carlos. Pequeno Guia da Literatura Universal. rio de Janeiro, Forense Universitária, 1986. PERRONE-MOISÉS, Leila. Texto, Crítica e escritura. São Paulo, Ática, 1978. SANTOS, Jair Ferreira dos. O Que É Pós-Moderno. São Paulo, Brasiliense, 1986. SANT’ANNA, Affonso romano de . Paródia, Paráfrase & Cia. São Paulo, Ática, 1985. 

 (Nota de Lázaro Barreto na data desta transcrição do original, ou seja em 06/03/2006: o texto em 28páginas datilografadas foi remetido pelo autor (Oscar D’Ambrósio, que até hoje não tive a oportunidade e a felicidade de conhecer) através de correspondência datada de 23 de janeiro de 1991, procedente de São Paulo. O suplemento Literário do Minas ia publicá-lo, mas estranhamente ouve uma reviravolta de metodologia (virada partidária de governo?) e mesmo depois de ter sido anunciada, a publicação foi vetada. Em dívida de 20 anos com o autor (a quem eu tinha anunciada a publicação), faço agora o que está a meu alcance, tentando minimamente iluminá-lo pelo menos através de frestas deste blog).

quinta-feira, março 02, 2006

ONDULADO - GRÃOS DE PÓLEN E PICLES DIETÉTICOS

Fragmentos: 

- Mãe West costumava dizer que quando era boa, era muito boa; mas quando era má, era melhor ainda. - O nosso País já pagou os pecados da matança dos índios e dos africanos? Quando purgar o morticínio, tim-tim-por-tim-tim, aí sim poderá ser feliz. Antes não. - O mundo tem seus ocos escuros, seus espinheiros luzidios, suas paredes e tampas, e ainda assim chove dentro. - Na conhecida e amistosa tarde rural eu sentia a respiração das árvores que me acompanhavam na beira da estrada. - Sim, penso que consegui aprisionar nos meus os olhos dela. Estão aqui guardados, retinados, disponíveis para novos olhares. Mas até quando conseguirei segurar o brilho deles, tendo no meio tanta neblina, tanta distância? - Primeiro é preciso amar a si mesmo, depois os outros seres e as coisas. Isto não é ser egoísta, é ter um ponto de vista e outros de apoio. - As crianças são responsáveis, inocentemente responsáveis pela lembrança de Deus no homem, e do céu na terra. - O céu prenhe de chuvas a prometer o reconforto das primícias, as renovadas searas da natureza, os cachos de cocos e de bananas, os pendões de milho, os espinhos de benzinho: uma verdadeira feira de amostras a céu aberto. - Deus, em seu poder sobre todas as coisas, pode ser solteiro ou viúvo, mas enquanto criador de todas as coisas era casado e bem casado. Algum celibatário convicto é que escondeu o nome da Deusa. - As palavras não são apenas palavras, as coisas não são apenas coisas. Há uma inteligência ou uma sensibilidade, envolventes. - As ações melancólicas dos que não se arriscam, não sobem nas árvores nem caem nas águas,dos que recebem de mãos beijadas a honestidade dos outros. - Os filmes de amor geralmente exageram na dose romântica. E o espectador, quase sempre, quase ou a chorar, ouve a própria voz dizer: ora essa, quê mentirada! - O cara que disse: quem faz sacanagem comigo faz uma vez só, vivia de mal com quase toda a população da cidade. - O que há em comum entre o escritor e o relógio é que ambos são imprecisos e trabalham de graça. - Nunca mais levou desaforo para casa, depois que descobriu o caminho do bar. - A imaturidade da mulher é biológica, diz o machista: dos seus 100 mil óvulos, apenas 450 amadurecem. - O atacante tinha o pé tão torto que não acertava nem a linha de fundo do campo. - Escrevia à máquina porque não sabia o alfabeto de cor. A idade média dos favelados continua sendo a idade das trevas. - Deus foi sábio e justo (diz o biógrafo) em fazer o escritor Carlyle casar-se com a Sra. Carlyle. Assim, em vez de fazer quatro pessoas infelizes, fez apenas duas. - Sou a favor da sobrevivência dos corruptos,talvez dissesse Rui Barbosa, hoje. Pois certamente não suportaria viver sozinho neste mundo. - Segundo Ezra Pound, quem fez a primeira cadeira foi um inventor; quem fez a segunda, um mestre. E quem sentou na terceira não passava de um diluidor. - No mundo dos espetáculos, sempre que uma estrela cai, um astro cai em cima. Beaumarchais, quando disse que o que é muito tolo para ser dito pode ser cantado, estava apenas profetizando o surto dessa barulheira que os jovens eufemistas chamam de som legal. - Na corrida dos cromossomos, o prêmio é o descanso de nove meses para o vencedor. - O celibatário é polígamo. Não tendo uma mulher, tem todas. - O verso livre é a linguagem franqueada de toda regularidade rítmica (logo, uma prosa), como quer Roger Caillois? Meu Deus, a própria prosa precisa ter lá seu ritmo, também. Fora do ritmo não existe vida contínua, nenhuma arte. - De fome e sede morria o rei no pomar e no jardim onde abundavam as águas das frutas e as frutas das águas...:assim morro eu de impotência e ignorância ao pé das estantes dos livros da sabedoria humana, tão belamente armazenados? - A cena no albergue, de mantear Sancho Pancho, é de tal maneira de matar de rir e de viver de chorar, que se repete em mais de 500 páginas na lembrança do leitor do fabuloso “Dom Quixote”, de Cervantes. - O uso do cachimbo faz a boca porca? - Ela é linda de morrer. Os agonizantes dizem da morte. - Quando São Pedro arrasta as cadeiras no céu, os desabrigados da terra dançam. - Para avaliar o peso de suas obra, o escritor pesava as folhas antes de escrever e tornava a pesar depois de escritas. - Esse cara é normal, dizem. Mas ele manca das duas pernas. - Que o sexo é sobretudo uma fonte de prazer, o próprio estudo da biologia prova: os seres que mais procriam são os assexuados. - Sujeito amarrado pro rabo tava ali. Por mais que se batesse na cangalha, o burro não entendia. - A fome era tanta que enquanto as aranhas enrolavam teias em sua garganta, lá mais dentro as tripas maiores comiam as menores. - Prometeu ria da própria desgraça. Acorrentado ao penhasco, os abutres vinham a toda hora fazer-lhe cócegas no fígado exposto. - Tinha o ar hipócrita de um pai que sempre espancava os filhos e que jamais tinha comido cadeira por isso. - Para provar sua tese de impraticabilidade do onanismo entre os pássaros, o ornitólogo, no viveiro, disse: “uma andorinha só não faz, verão.” - As coisas e seres que adoecem e fenecem precocemente: o que lhes rouba o vigor, assim precocemente? - O Novo Mundo ficou velho, ou seja, morreu (de morte matada, com um tiro no coração) no dia em que foi descoberto pelos caçadores de cabeças do Velho Mundo. Assim falava Claude Lévi-Strauss. - Oposicionista chapa-branca é um oportunista que não se manca? - Drummond parecia viver no fundo das coisas, de onde via as superfícies do lado de cima e do lado de baixo. Assim ele continuava em Minas (onde talvez estivesse morto, ou seja, estivesse a viver de outra forma), estando no Rio (onde desenvolvia a ilusão do migrante, julgando que tinha ido, pensando que tinha ficado). Vivia em muitas dimensões: o coração numeroso a recalcar os climas do nível das nuvens e do nível dos mares, o cérebro dinâmico a receber e expedir as mensagens dos sentidos continuamente despertos, em palavras carregadas de luz e energia. - A palavra idiossincrasia é gráfica e foneticamente antipática e serve para definir o temperamento individual em relação principalmente a certas influências incompatíveis. Lembro-me dela toda vez que ouço e vejo as menções e imagens de “reis” fajutos como Pelé e Roberto Carlos, que folclorizam no sentido mais risível as noções de exemplaridade humana. - Tantas vezes o cântaro vai à fonte, que um dia cantará. - Uma pergunta talvez cretina: as fraudes, falcatruas, roubalheiras e outros sinônimos da desgraceira nacional ocorrem paulatinamente num certa ordem de preferência dos agentes ou é a imprensa que programa a divulgação para evitar o congestionamento e dar uma certa ordem no cáos? - O desejo é melhor do que o orgasmo, diz a psicóloga Lídia Aranty, - pois aquele perdura no tempo e na intensidade, enquanto este é limitado no tempo e na intensidade. A diferença entre os dois (ela acrescenta) está entre o não vivido (onde cabe tudo) e o vivido (onde cabe do melhor e do pior, mas só cabe o que cabe). - A arte é ambígua, o amor é ambíguo. Se não fossem, o que seriam? Batatas digeridas ou não, antes ou depois jogadas ao lixo? - Scarlett O’Hara, uma criatura de ficção (do romance O Vento Levou), de repente passa a viver em vários corpos maravilhosos, propensos a encarná-la no filme de King Vidor: Joan Fontaine, Paulette Goddard, Jean Arthur, Joan Bennett e Vivien Leigh (que acabou arrebatando o papel). Foi, até hoje, a personagem de ficção mais feliz do mundo? - Leonard Boff, o da teologia da libertação, acha que o céu (a felicidade), o purgatório (a dor) e o inferno (a crueldade) começam na terra – e porisso acha que a Igreja devia ocupar-se mais da terra do que dos outros espaços. - Inscrição de Malraux nas casas de cultura francesas: “Ao mesmo tempo instituição e contestação de toda instituição, a Casa de Cultura traz dentro de si a contradição, isto é, o movimento e a vida”. - O poeta, este ser intemporal contemporâneo do passado do presente do futuro conterrâneo de Demócrito de Jesus de si mesmo. - Mary, uma das amadas de Bill (era assim que Shakespeare era conhecido em sua pequena cidade inglesa do século 17) ficava estupefata com a ambigüidade do poeta. Voluntarioso e despreendido, ele chegava ao ponto de oferecer a ela sua vida, mas depois passava dias sem procurá-la nem mesmo para um simples cumprimento. Sendo um freguês de caderno da cultura pré-cristã (greco-romana), citava, muito à vontade, o provérbio bíblico: “Assim como na água o rosto responde ao rosto, o coração humano responde ao coração humano”. - Mesmo quando o impulso sexual empalidece ou fenece, a libido continua a se manifestar no homem, através da energia mental. Não é assim que Jung queria corrigir Freud? - As aventuras zoológicas e botânicas dos naturalistas Spix e Martius, em 1818 a 1820, no solo brasileiro, são comparáveis às aventuras literárias dos grandes poetas que procuraram e encontraram as maravilhas de uma floresta virgem não só do planeta como da alma humana. - A pesquisa e o estudo da genealogia são fascinantes. Nunca chegam ao fim. Uma vida sucedendo à outra nas linhas descendentes e ascendentes e colaterais. E aí vem o rol das inferências e dos conhecimentos: a semelhança clara ou obscura dos semblantes, a afinação dos gostos estéticos, as provisões dos instintos. É o sangue correndo na humanidade através do tempo e da geografia, as individualidades crescendo e multiplicando e se transformando em sociedades. - O escritor escrevia tão mal que o digitador, mesmo zangado, bocejava. - O poeta é um fracassado no mundo real? Na verdade, diz Ernest Kris, ele cria mundos e não apenas entra em devaneios. A fantasia é o contorno da infelicidade, já dizia Freud. A ficção, por outro lado, é a realidade remodelada. - De que é feito afinal a mente de um traficante de drogas? Um corredor polonês com os cascavéis em bote de ambos os lados? - Balzac é um mestre na arte de contar histórias. Suas páginas voam em nossas mãos. Mas de vez em quando ele pára a narrativa para jogar pérolas em nossas mãos. Como a que está no romance “O Pai Goriot”: “quando me tornei pai, compreendi Deus. Ele está inteiro em toda parte, pois a criação saiu dele. Assim sou em relação às minhas filhas. A única diferença é que eu amo mais minhas filhas do que Deus ama o mundo, porque o mundo não é tão belo como Deus e minhas filhas são mais belas do que eu”. - A luz elétrica das cidades ofusca o luar, que uns não conhecem e outros não se lembram mais dele. Mas a sabedoria oriental ensina que devemos ouvir a voz das árvores mesmo quando não há vento. - A exclusão social do verdadeiro artista e do verdadeiro intelectual se dá principalmente quando a mídia transforma a arte e a cultura em folclore entre aspas, ou seja, numa mediocridade ao alcance de todos. Os inocentes úteis dessa folclorização frequentam à exaustão os meios de comunicação da imprensa falada, escrita e televisiva. Com o tempo, todos passarão, é claro. Mas a fábrica desses ídolos de barro não cansa de produzir aberrações. - Depois que Deus ilumina para todos e o sol se põe, cada um tem que acender a própria lamparina. - O comunismos morreu mas não foi o capitalismo quem o matou: morreu envenenado nos próprios erros.Como o capitalismo poderia matá-lo à luz do dia, se vive nas trevas do aquém-túmulo? - A honestidade é um terapia, Freud dizia. E acrescentava: “o tratamento psicanalítico está fundado na honestidade”. Machado de Assis também acreditava que a honestidade é até mais importante do que a felicidade. - A mídia é um pau mandado do poderio econômico, e como todo pau mandado, dói na cabeça dos mais fracos. - Schopenhauer execra os pretensos donos da vida, para os quais nada vale além do que deixam valer. O que eles ignoram, não existe. Não é mesmo um desaforo, tamanha mistificação? Mesmo alguns filhos mórbidos da vida seguem pensando que o que ninguém (ainda) sabe, não existe.De minha parte estou cansado de saber que mesmo o que ainda não nasceu, já existe. - Debbie Reynolds nunca desfez seu ar de ingênua, seu espírito de corpo romântico? Perdeu o marido para Elizabeth Taylor e depois a filha para os narcóticos. Sofreu sem merecer, ela que soprava o fogo da apatia de uns e o fogo da paixão de outros. Doce pássaro da juventude, não merecia envelhecer assim desenganada, não é mesmo? - O filmusical da Metro nas décadas de 40 e 50 dava corda aos relógios do coração, dava asas aos seres humanos, pernas e braços às montanhas, aos campos e florestas. A musicalidade brotava em toda parte como as águas cristalinas do território de Minas Gerais antes do desmatamento.