sábado, setembro 22, 2007

DA PROXIMA VEZ, O FOGO

É desoladora a paisagem rural de Minas Gerais, que já foi tão maravilhosa e florescente. Outro dia, numa viagem à Belo Horizonte, pude amargar a visão cenográfica toda destruída pela sanha predatória dos espíritos de porcos, ex-seres humanos. Mais de cem quilômetros com as duas margens da estrada torradas até às raízes da vegetação substituída agora pelo terreno desnudo e enegrecido. E assim foi embora, mais uma vez, a parte mais bonita da paisagem. Infelizmente a área construída, em toda a extensão, é paupérrima, para não dizer deprimente: é uma bagunça generalizada de trastes e bagulhos entremeada ao casario predominantemente favelado. Sabemos que do governo federal não podemos esperar nada de bom. E o do municipal, que está indo no mesmo diapasão deplorável? Resta a providência do governo estadual que pelo que me consta, é atualmente uma exceção à regra negativista que assola o País. O que será que ele poderá fazer, sozinho, para corrigir tantas distorções em toda parte? A balela do toco de cigarro como causa incendiária nas margens rodoviárias, é conversa pra boi dormir, mas continua sendo alegada pela omissão dos responsáveis pela preservação ambiental. E sempre me pergunto: será que alguém acredita nessa hipótese irrisória do toco de cigarro jogado por ocupantes de automóveis do trânsito? Vivi e trabalhei na roça muito tempo e sei de experiência própria como é difícil, senão impossível, conseguir labaredas através de um de um pusilânime toco de cigarro. Lembro-me dos lavradores tentando acender um foguinho para esquentar suas comidas nos caldeirões. Sem o auxílio da chama de um isqueiro ou de uma caixinha e de um pauzinho de fósforo, era dificílimo, para não dizer impossível. Até mesmo um tição de fogo, sem um pouquinho de álcool, era até uma questão de sorte conseguir a labareda para crepitar na massa da macega e dos gravetos – só mesmo assoprando repetidamente e contando com as graças de Deus e dos Santos. Ninguém ia trabalhar na roça sem levar seu isqueiro ou sua caixa de fósforo. E não havia o tal de incêndio. Se da queima das coivaras na preparação do plantio dos cereais saísse uma fagulha para o pasto ou para a capoeira, ah, era um Deus nos acuda: todo mundo parava de fazer o que estava fazendo e ia ajudar a apagar o fogo. Hoje nem isso acontece: quem ver o fogo alastrando, mesmo na beira do rio e do calçadão das caminhadas dos citadinos, nem dá bola, segue em frente na sua criminosa indiferença. Diante do exposto, quem acreditar que um simples toco de cigarro jogado na macega causa os estrepitosos incêndios florestais, ah, tem que acreditar também nos prodígios de papai noel e da mamãe cegonha. E então, o leitor pergunta e eu também pergunto: quem põe o fogo na vegetação vulnerável? Só pode ser um espírito de porco (Deus que me perdoe de citar o pobre do porco em tal circunstância) encarnado em vadios irresponsáveis e/ou nos proprietários dos terrenos que, assim procedendo, não precisam pagar para roçar seus pastos: o fogo faz o trabalho de graça. E sabem como os salafrários justificam? Com a debochada pergunta: “De quem é Mundo?” e com a resposta a seguir: “não é meu nem seu. Então foda-se o Raimundo”. Estamos vivendo nos últimos dias de Pompéia? Cada um para si e o Diabo para todos? Quem pode mais engole o outro? A falta de decoro parlamentar influiu tão negativamente que passa a ser, no país, a falta de decoro popular? Palavras até então sérias como pudor, honra, sobriedade, ética, já estão ganhando os ares do anacronismo vocabular. James Baldwin em seu livro “Da Próxima Vez, o Fogo”( Trad. de Christiano Monteiro Oiticica, edit. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1967) constata que na própria igreja já “não havia ambiente de amor. A força transfiguradora do Espírito Santo terminava quando terminava o serviço, e a salvação estacava na porta da igreja”. Lemos em Gênesis 1-12: “E a terra produziu verdura, plantas germinadoras de semente e árvores que dão frutos e cada uma das quais tem semente segundo a sua espécie”. E a pergunta de Baldwin, à página 110, é de um pessimismo profético: “Que destino estará reservado a toda essa beleza?” - e lamenta a dor de um povo (o negro na América do Norte) a quem tudo foi roubado, inclusive – o que era mais penoso – a “noção da própria dignidade. Povo algum poderá sobreviver, privado desse sentimento”, ele acrescenta. E termina o livro observando que se “falharmos, ao dever de edificar o nosso país, se não ousarmos enfrentar tudo nessa tentativa desesperada” (lembro-me da luta dos ecologistas de hoje em dia), “sobre nossas cabeças estará pendente o cumprimento daquela profecia da Bíblia, recriada em hino por um escravo: “Deus forneceu a Noé o sinal (da paz) do arco-íris: não mais água – da próxima vez, o fogo!”.

sexta-feira, setembro 21, 2007

FALEMOS DA VIAGEM - Conto

I - Se bem entendi o que disse, eu disse: estou no alto do morro, a enxugar o suor com a barra da camisa de riscado. Disse o que no momento penso. O homem do campo tem mais cerne, agüenta mais as pontas e as raízes. Se bem entendi, não sabia mais como ali chegara, já no fim do silêncio. “O gato nunca cai, ele sempre pula”, disse o compadre Zé Senhorinha, apiedado de meu cansaço, ele também mergulhado em cismas, penteando a barba com os dedos afilados. Alguns raios de sol batem em sua cara. Reparo no que mais falta nele: a sobriedade que falta ao ébrio ou a devassidão que falta ao puritano? Assim ruminando é que chego à beira do rio, onde o compadre capina a roça de milho, a cuspir nas mãos e esfregá-las uma à outra, antes de espalmá-las no cabo da enxada. Avanço pelas beiradas da roça, desapareço no meio do capim-gordura, até ganhar a subida do outro morro que leva ao Arraial. Tinha visto mais um filme de John Ford: Cathy Downs em preto e branco é rosada! O azul é verde e amarelo perto e longe: olha ele ali, depois do rio, a voar! Dez mil rezes se extraviam, canta Lynda Darnell. O que ela me pedir é mais dela do que meu, como diria Shakespeare. O violão faz o fundo das tristezas a chuva castiga os ossos dos mortos a poeira em baixo, a chuva em cima: onde deixamos a pureza se perder? A noite não dorme nem deixa dormir o crepúsculo tange o rio para o lado verde do amarelo.... Hamlet pode estar no meio dos bandidos e vaqueiros do velho oeste? Victor Mature está se matando aos poucos? Uísque no bar, tosse no alpendre,...mas tem, isso ele tem, duas lindas namoradas em Tombstone. As árvores sobem o morro comigo, levam a relva e o gado para aos altos do futuro e os baixos do passado. Tião José de Almeida, um outro amigo, destampa a caixa de bilosca, tira a revista de fotos e poemas, toma um gole de café, fica com os cotovelos rentes aos lados da cintura – e a seguir embrenha-se nos sertões do quintal de sua casa, a pensar e a lembrar do tempo que trabalhava na estrada de ferro e vivia no saco de lombrigas do Diabo. Assim mesmo como rezava Bosch: “por causa da ira de Deus, o Diabo estercou-nos”. Assim mesmo como rezava Lutero: “o ânus do mundo é o ânus do Diabo”. Assim mesmo conforme rezava Marx: “quem quer a riqueza, quer o poder”. Alguém aí nos arrebaldes conhece o tal de heroísmo nacional?, tive vontade de perguntar, outro dia, a um dos da roda dos vadios. E o heroísmo social e mesmo o particular? Alguém aí sabe por que a nossa ficção tem que ser diferente das outras? E por que nosso teatro é desfibrado e desluzido? E daí, seu imoralista de uma figa, e daí? Alguém está mais uma vez a me jogar pragas e pedras? De olhos fechados, eu juntava as imagens dos caminhos, guardava as visões nos bolsos mais íntimos e também as palavras que vinham como chamas de lenha nova, como as que vinham da boca do ator Christopher Fry. Que não me estranhe quem me ouve, quem me vê.Sou meio cinéfilo, meio roceiro. Ah, pois, sim. Vi uma vez no Brejo do Amparo o carro de bois a cantar na rua, de parelha com a casa da venda, uma de oito portas e sete janelas frontais: o menino candiava, o rapaz tangia os bois, motrecado no cabeçalho do carro de sucupira. Levava uma carga de rapaduras para o doce de pau de mamão de algum casório no Lavapés, no Capão dos Porcos? Viajei a cavalo, de trem de ferro, a pé, até chegar aos belos livros das mais lindas estórias. Em Bonsucesso do Rio Grande, onde vivia a minha primeira esposa (com a qual infelizmente nunca me casei, nunca me meti), os jovens promoviam o chamado baile do além, já que era o último sábado de julho daquele ano. As caveiras esculpidas em mamão verde eram usadas como luminárias. Uma corda de bacalhau, desfiada, atravessava o ar acima das cabeças, repleta de aranhas, morcegos e bruxas. Os símbolos da morte celebravam a vida, no seio da juventude daquele lugar perdido nas brenhas. E era assim emocionante nas surpresas de cada momento que vinha das portas e janelas do salão daquele clube social. Minha ex-primeira esposa não sabia o que fazer para me agradar, mas eu ficava sem graça. Já era casado muitas vezes em outros lugares. Quando cheguei ao Povoado de Xarqueada, desisti de tudo que já tinha conseguido na vida. Entrei numa moita de bambus, deitei na relva, senti o mato crescer dentro e fora de mim. Aqui ninguém vai roubar minha alma, pensei. A poesia é a tábua rasa, o covil escuro, a viola do pagode: Se você pensa que sabe tudo está é confessando que nada sabe, sabendo que o campo do conhecimento é feito de areia movediça. Se os olhos da amada confessam cumplicidades é porque prometem intimidades e momentos poéticos. É nesta hora que é hora de matar o bicho, tomar a nossa caipirinha, diz o compadre Zé Senhorinha, lá na venda do Modesto, na Volta do Brejo. O lápis risca o desenho das coisas e sobre o riscado, desenha outras coisas. Ele manca um pouco enquanto anda e seu olhar, enquanto as pernas andam, manca também. Não é hora de descumprir tratos, tampouco de me deixar na dúvida zangada. Fungando um pouco, desamarra as embiras das alpercatas e despede-se de mim, rumando para os lados da Capelinha. Estava no quebra-corpo da cerca que divide o pasto do padre com o pasto do Zé Pedro. O que fazer agora com o resto da tarde de mais um dia passado ? Desci o morro da Fontinha, entrei na grota, entrei bem devagar, na esperança de aprender alguma coisa dos mistérios daquele lugar assombrado. Fui arredando as latadas vegetais até chegar na parte escura do chão e do ar, ambos contaminados de outras feições: pressentir o perpassar instantâneo cauteloso e provocante de um daqueles gênios das grotas que restaram da floresta que havia ali: notei um rastro tangível no ar? Um pé de vento nos pés das árvores e nas moitas de capim, nascidas e crescidas no lodo negríssimo? Noutro dia tomava café na casa de adobes da rua enviesada, que morre no cemitério de Caquende de Catuá. Que o amor não estorve a vida, que a vida não estorve o amor – dizia na parede a fotografia da moça da casa, chamada Elza, uma flor dos campos, de olhos marrons. Vendo-a luminosa e ressabiada (uma coragem contraída, uma saúde recolhida?), a servir café, a escorregar entre portas e paredes, notei que a beleza oculta das pessoas às vezes dá mais na vista do que a mostrada através de anúncios. Mesmo assim fico sem saber. Deveras. A fisionomia enigmática à distância (no pensamento, no sonho) é ainda mais enigmática nas proximidades do amor. E o nevoeiro cobre o resto do mundo. Só Caquende de Catuá permanece incólume entre as barranqueiras e penedias circundantes as flores roxas do cemitério, a igreja dos bandeirantes dois meninos de estilingues, debaixo da bilosqueira um cavalo quase a entrar no nevoeiro, coitado A sombra da poesia acende uma palavra em Divinópolis, finca as estacas no caos, em Divinópolis orienta os escorraçados da roça e os humilhados da cidade acende o estro no qual ardem a ressonância gregoriana, as disquisições teológicas e Deus, por um triz, ora essa ora essa e Deus é o pique potencial de sua poética que puxa em latim a ladainha das novenas e quando estamos na genuflexão das graças e expiações a poesia desafina os conceitos seculares que vinha cantando e garante em voz alta que o ânus feminino é lindo. Quando estive na Catedral de Reims (nunca estive lá o tanto que desejava, como diria Ferlinghetti) senti Deus nas asas do invisível a grifar imagens eu morrendo de medo de perder as linhas da beleza de perder os movimentos que sigilosa a beleza faz (como diria Ferlinghetti) – mas logo vi a boiada passando na única rua da Barra do Coité a levantar poeira abrir janelas tilintar o meio-dia rumo à rocha negra da encosta onde encosta o velho arraial. Em Paredão de Minas o nosso Tião José de Almeida vê na frincha da porta, na rachadura da parede a nudez a neblina a diadorina Bruna Lombardi... Depois que viu, procura a segunda dobra do tempo os minutos que fluem no interior da fruta a luz que vem do outro lado da estrela o banho de corpo inteiro na bacia de cobre as gotículas pousadas nos poros o feliz enlace da ossatura e da canção. 

II - As gotículas pousadas nos poros o feliz enlace da ossatura e da canção. Quando chegou ao Chapadão do Pau torto no lombo do burro tardio o Tião se ergueu da sela aspirou o ar terapêutico da verde planura aqui e ali riscado de roças caminhos telhados bicharada as teias de tua casa (lá diz a trovinha portuguesa) são bonitas, têm virtude entrei nelas doente saí delas com saúde. Numa daquelas casas, daqui a pouco ( o Tião pensa) vou almoçar feijão com torresmo e farinha de mandioca não precisa de mais nada para ser feliz (talvez um pouco de arroz vermelho e pimenta de bode?). Três dias depois o ávido Tião acompanha o enterro de um amigo em São Sebastião do Curral: enquanto o féretro se move em rezas e epicédios ele promete a si mesmo viver muitos e muitos anos “quero ser levado à última morada de alma lavada o corpo leve nas mãos dos parentes e amigos”. No que disse me disse no entanto, quando cabeceava no alpendre, quem sabe a citar João Cabral de Melo Neto: “alguém me diz toda noite coisas em voz que não ouço. Falemos da viagem, eu lembro. Alguém me fala da viagem”. Chego de canoa à praça do Arraial do Rio das Mortes: as casas dormem quando sonham, acordam o galo no topo do cruzeiro canta e recanta sem atordoar a doce fluência do silêncio as ovelhas pastam como no antigo testamento um morador (o único?) quenta sol no banco de pedra seja tudo oferecido ao amor de Deus e das Criaturas Dias depois atalhando um dos caminhos torcendo o pescoço nas árvores de pedras vi o muro telhado do lugar chamado Sopa a recortar os triângulos escuros do cruzeiro de viático A parte superior da igrejinha de pedra a cruz na torre que aponta o senfim do além tendo em cada braço um par de andorinhas assim vi devagar e demorado a parte do céu que desabava sobre as bananeiras e nem assim Deus me acudia! Em Desemboque cheguei depressa e voltei correndo fui buscar fogo? ah ruínas de áureas eras, soterradas na rasteira vegetação dos mata-pastos e vassourinhas e capins como recuperar o alento e a convicção de que o sofrimento existe justamente para neutralizar o sofrimento? Estamos conversados, eu disse aos fantasmas dos bandeirantes egressos de meu outro arraial do desterro fui com um pé e voltei com o outro sem ao menos esperar a caneca de café, a fumegar Só tenho um coração dentro do corpo. No último agosto acompanhei a procissão das casas (eu disse a procissão das casas) rumo à Igreja de Mercês de Água Limpa O crepúsculo pedia silêncio ao verde que crescia nas demoradas campinas da infância mesmo assim o sol, mesmo soterrado continuava iluminando as casas noite adentro Mas as paredes externas estão descoradas e enrugadas como um rosto inerte na janela dos anos: mas por dentro estão novinhas, como preservados corações E eu nas andanças de deus-dará tenho alguma coisa a ver com o que vejo? sou parte deste amálgama, desta comunhão? Tenho prazer de visitar a limeira da Água Fria de dar boa tarde a cada uma das limas de abraçar o vento renovador dos ares o vento que canta e dança na rua de Guaxina que instaura e marca o ritmo do bailado das calcinhas no varal do terreiro do quintal de uma das casas. Assim é, é assim, graças a Deus! uma vez por semana a mulher de todas as horas estende sete pares de calcinhas e sutiãs no varal do terreiro da cozinha de sua casa Aquelas peças alvejadas, de fina tessitura pequenas auréolas dependuradas no arame aéreo a rosa boreal na indesmanchável aurora pespegada ali nos barrancos dourados oh duradora duradona lindela belinda inserida em definitivo no breviário do relance na sobrevida do desejo mil vezes apreciado e glorificado na sobrevida dos anseios nos doces e lentos arraiais da mundial mineiridade Ora pois assim seja por bem dos nossos pecados a fileira pênsil dos orgasmos presumidos (a boca e o esôfago e tudo mais da libido: nem sei mesmo como afinal consegui atravessar o arvorejo das lonjuras e aqui chegar para enfim cheirar e absorver tais fragrâncias sumamente sentimentais) quando a brisa baixa no terreiro afrodisíaco a melodia silenciosa dos píncaros bafeja meus ouvidos, abençoa meus olhares os pirilampos dançam no empíreo, mesmo de dia as palavras trocam de lugares nos poemas a festa de fogos comemora o espairecer dos seres vivos as calcinhas mínimas semínimas colcheias semitonadas cada uma com a pele de uma fruta: a laranja campista na cor e no suco a pêra sonhada nos momentos de sede a maçã de outra eva, magrinha e galega a goiaba do rosto dourado, de boca vermelha a romã dos dentes que beijam em vez de morder a pitanga em cima da árvore, acima das mãos a uva tonteira nas sete noites sem dormir! Assim é o festival das calcinhas no varal e já estou bem longe, aqui no Morro da Onça a lembrar o implícito assédio em Guaxina a presença da natureza nas ausências mais choradas o sutiã sem a mulher, a mulher sem ele os mínimos sinais anatômicos do prazer (o jogo dos limões doces no bom gosto da felicidade) os montículos amanhecendo nas proximidades das lonjuras os sons as cores os cheiros sem parar em todos os sentidos assim é assim mesmo: uma vez por semana ela monta seu jardim nos terreiro eletrifica a casa para jogar meia-luz nas begônias e mais ação nos ramos, nos grãos do chão e do ar ali mesmo as rosas místicas e cândidas da sexualidade as violetas as orquídeas os agapantos a aura virtuosa e abissal em cada ponta de bambu ali a esticar o cordel bemaventurado a graça esganchada em cada nesga da manhã ali toda a intimidade à luz do sol masculino a imagem desvestida do carinho feminino a canção que perpassa cada dobra a flor aérea a evocar a fruta terrena ali inteirinha no transe e o Tião a tirar retratos íntimos mesmo de longe na agora cada vez mais longe Pedraça do Desterro. Dias depois em barranco Alto, ainda a digerir as delícias dos ares da outra paragem fiquei sabendo por via das dúvidas que os moradores daqui tinham ido ver a luta mortal do último lobo contra a última onça das redondezas Lá no fundo do barranco o arraial estava deserto o mato tomava conta da rua as casas abriam-se para acolher as árvores e os bichos os galhos ofereciam flores e frutas aos visitantes entravam pelas janelas abertas ao eterno luzir dos respingos entrevistos aqui e ali Mas onde estavam os moradores? Todos na mais completa ausência Ninguém ali ninguém estava ali pra dizer onde estavam os moradores de Barranco Alto. 

III -   E assim refeito de miragens e de novas viagens sertanejas no interior das redondezas deste velho mundo mineireiro, senti o impulso de subir na bilosqueira plantada no fundo do quintal de minha casa. E lá do alto, no desafogo das brisas verdesclaras, senti o impulso e a força das asas do sabiá de peito amarelo das laranjeiras adjacentes, ouvi o canto que me beijava das alturas e então, assim disponível e lúcido e pássaro, num átimo trocava o verde da terra pelo azul do empíreo, alongado e profundo, depois das nuvens. Assim tenho dito.

quarta-feira, setembro 19, 2007

A POLÍTICA BRASILEIRA

É a primeira vez que fico velho. Uma simples noite (ou manhã) de um ano (1964), dura um século. Não obstante o mudo clamor da sociedade vacilante e heterogênea. Tarde da noite (começo da alvorada militar?) A morte escurece o cenário reduzido a um curral inescapável. Indeciso entre o chamado e a interdição bebo cachaça e fumo (o cigarro queima os lábios e os dedos do saxofonista?). O tempo farsante não pára. É a primeira vez que me atropela assim. Mas não entrego o que me resta. Escrevo o epitáfio dos conservadores: “Conservaram quente o inferno, os filhos da puta”.

domingo, setembro 16, 2007

A JABUTICABEIRA DO QUINTAL







As árvores morrem erguidas:
os galhos ao sol e à chuva das estações
espetadas contra a névoa azulada.
Seja por alguma doença ou mera velhice
uma e outra delas expiram aos poucos
nos relapsos dos ciclos
na agonia dos silentes suspiros.

Uma das jabuticabeiras seguiu-me vida afora
com seus milhões de olhos negros
que se deixavam ver, oferecidos à sede
de todas as propensões do corpo.
Irremediável é agora vê-la perder
a seiva circulante das artérias mais íntimas,
murchar e secar o madeiramento e a folhagem,
agonizar amarelando
e tudo isso meu Deus do céu:
em meio à verdura exuberante das laranjeiras
das mangueiras bananeiras pitangueiras,
agora meras vizinhas condolentes, como se ela fosse
um dos moradores do arraial vendo outro deles
já sem o olhar nos olhos.

quinta-feira, setembro 13, 2007

quarta-feira, setembro 05, 2007

A POÉTICA TEMEROSA

Temos o corpo o espírito a alma (em suas ramificações e comunhões) e algo mais. Algo mais que continua onde estacamos e de onde regressamos. Íamos nadando em águas turvas e claras, nas letras grifadas dos achados e perdidos. Íamos de braçadas de estirões de costas, céleres, impunes nas avalanches e correntezas. Íamos sobre as ondas dos signos e dos versos, aspirando os ares das matas ciliares, inflando os sentidos potenciais assimilados, arriscando parábolas místicas e profanas, certamente arredados das margens e das fontes. Todavia sabendo que lá no fundo cada ser vivente é alimento de outro ser vivente. Por via das dúvidas abrimos os olhos solertes, querendo saber como atravessar os horizontes alheios e íntimos das rosas dos ventos, das águas profundas. Exímios nadadores, sequiosos por conhecer o que o temor embarga, sentimos quando a força do mergulho escasseia. Sentimos o afundamento iminente e a consequente urgência de voltar à tona – e voltamos, portando as flores meramente intermediárias. E as begônias ignotas da célere profundidade? Seriam repelentes face à nossa suscetibilidade? Quem assim nos devolveu à superfície inicial? O temor dos abismos estremecidos da fundura comprimiu nossas vértebras, sufocou nosso fôlego? Por mal dos pecados ficamos assim no limite das imediações, a deplorar o esforço baldado. É o sinal terrível de uma letal fascinação? O vislumbre do céu ou espanto do inferno? Assim volvemos contra nossa vontade à rotineira superfície que nos empurra para cima e para baixo,visando as alegadas profundidades essenciais que tanto nos atraem e nos refutam.

domingo, setembro 02, 2007

O CAOS VIROU ROTINA?

Por que a política brasileira caiu no marasmo (para não dizer carnavalização) atual? Por que um território tão grande e belo está como que ficando pequeno e feio? Por que tanta mão de obra desocupada (tanto desemprego!) se há tanta coisa por fazer, tantas obras dormindo no berço apático dos projetos? Por que tanta falta de homens (shakespereanos) que enfrentem o mar de provações com o objetivo de esvaziá-lo através da fé dinâmica e da lucidez criativa? Perguntas acacianas e aberrantes. Por que Brasília se transformou num poço de desânimo, numa ilha de mandriões e coniventes, num pólo irradiador de maus exemplos? Por que? A resposta que no momento me ocorre: é porque falta um número maior de políticos que sejam estadistas da estirpe de um Pedro Simon, uma Heloisa Helena, um Fernando Gabeira; e também porque faltam os mineiros da estatura moral e cívica de um Teófilo Ottoni, um Otávio Mangabeira, um Pedro Aleixo, um Gabriel Passos, um Milton Campos, um Tancredo Neves. Homens de bem que se tornaram políticos, políticos que se tornaram estadistas, que apresentaram soluções em tantas ocasiões periclitantes, que concorreram para o bem estar social dos brasileiros em ciclos e transes cruciais. Mesmo na monarquia os nomes de Antônio Carlos, José Bonifácio, Martim Francisco, Padre Belchior, brilharam na luta pela salvaguarda da integridade moral do nosso humanismo; e nas refregas republicanas lá estavam as figuras insuspeitadas, coerentes e cultas de João Pinheiro, Bias Fortes, Olegário Maciel, Augusto de Lima, Afonso Arinos, Melo Viana, para desanuviarem os horizontes das incertezas e acionar os mecanismos da funcionalidade democrática. E quando a ditadura Vargas fincou as unhas e cerrou os dentes, e depois com o golpe militar de 64, quem esfriou os ânimos sanguinários e evitou o pior? Entre outros, de várias parte do país, os mineiríssimos Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Milton Campos, Israel Pinheiro, Itamar Franco. E agora? A fonte da moralidade mineira secou? Cansou de lutar em vão e resolveu desaguar no mesmo poço imundo da imoralidade e da indignidade? Se dermos uma olhada na História, facilmente constataremos que a administração pública brasileira nunca funcionou a contento. Desde a balbúrdia inicial da colonização, errando sucessivamente na incapacidade de pelo menos conservar a riqueza natural do território, até à proclamação da republica, que já começou desvalida e viciada, passando depois pelas nefastas experiências totalitárias, até chegar ao ponto de penúria que hoje presenciamos: um país saqueado, um povo abatido e as forças negativas preponderando em praticamente todos os níveis: estradas impraticáveis, espaços aéreo periculoso e marítimo encalhado e ferroviário sucatado; os poderes públicos à mercê da corrupção consentida, banalizada e triunfante; a segurança pública entregue aos ratos e às baratas; a criminalidade aberta e livre a ponto de já influenciar grande parte da própria população; a desmoralização dos usos e costumes num contexto governamental em que a lei é o cutelo do pobre e o amparo do rico; a escassês da boa exemplaridade de uma política sadia e honrosa. Historicamente o que notamos é que os períodos de vigência democrática têm sido tão curtos que nem dão tempo de se criar uma fina e vigorosa, dinâmica e erudita elite politicamente participante. Quando uma geração se posiciona favoravelmente, vem uma recaída de corrupção ou de absolutismo – e aí os elementos de escol das novas gerações desistem da politização, vão trabalhar em outras áreas – e o governo (municipal, estadual, federal) cai nas mãos dos arrivistas e dos mal-intencionados – e é assim que a vaca nunca sai do brejo. E assim a continuidade do desmando é de tal maneira constante e crescente ao longo do tempo, que o país nunca desfruta da ascendência de uma elite que possa instaurar a prosperidade de uma gestão de bons propósitos e de melhores efeitos. Se às novas gerações faltam pontos de apoio das influências salutares, como poderão um dia mudar o histórico da nação, passando do arrivismo irresponsável para um ativismo altivista, calcado nos princípios democráticos da dignidade com todos seus valores politicamente sadios?

sábado, setembro 01, 2007

SABEDORIA DE ANTIGOS ALMANAQUES

- Se teus esforços forem vistos com indiferença, não desanimes, pois o sol ao nascer dá um espetáculo todo especial e no e mesmo assim quase toda a platéia continua dormindo. 

- O rico e o pobre são duas pessoas O soldado protege os dois O operário trabalho pelos três O vagabundo come pelos quatros O advogado defende os cinco O confessor condena os seis O médico examina os sete O coveiro enterra os oito O diabo carrega os nove  A mulher engana os dez. 

- Para saber a idade de uma pessoa: mande-a duplicar o número de anos que ela sabe que tem; mande adicionar 5 e em seguida multiplicar o resultado por 5; aí despreza o último algarismo da numeração e subtrai 2. Ai está exatamente a idade da pessoa. 

- O cara chegou ao consultório do psiquiatra, com duas bananas enfiadas, uma em cada ouvido, e uma melancia amarrada no pescoço. E chegou dizendo: “Doutor, vim marcar uma consulta pro meu irmão que, coitado, não anda bem da cabeça”. 

- São muitos os caminhos, mas o principal, como diria Kafka, se chama Vacilação. 

- Winston Churchill, político e escritor: “Escrever um livro é uma aventura. Principia como um brinquedo e um gosto. Vira uma amante, depois um tutor, depois um tirano. Na fase final, já conformado em ser seu escravo, você o mata e arremessa o corpo ao público.”

POEMETOS AVULSOS

FELICIDADE. Dálias rosas beijos miosótis lírios açucenas cravos margaridas orquídeas. A falência dos sentidos de tantas coisas seja aqui defenestrada e o bom sentido da vida brilhe nos olhos das pessoas enfim auto-e-reencontradas. 

RIMAS. Amor rima com fervor: às vezes tem que se esconder, para sobreviver. Não é preciso que se o socorre, sozinho ele não morre. É só dormir na bamba corda, que a toda hora ele acorda. estão vendo como ele rima e não desafina? 

CRIANCINHA. O amor calou. Ouvi de um pediatra: Criança preocupa quando fica quietinha. O amor é assim: criancinha.

CULTURA POPULAR DO MUNICÍPIO DE CLÁUDIO (*)

- Os dois pescadores do Rio Pará, cada um em cada uma das margens. O da margem de lá pede fogo para acender o pito de palha. O da margem de cá estica o pescoço com o pito aceso na boca e assim acende o pito do outro. 

- Naquela época não existiam fósforo nem isqueiro. O fogo era conseguido na binga, um recipiente em forma de canudo, com boca só de um lado. A pessoa riscava o fusil (pedaço de aço) numa pedra-cristal e as fagulhas caiam dentro da binga, que continha a isca (pedaço de pano ou algodão ligeiramente embebido em querosene). Assim a isca retinha a fagulha que, soprada, alastrava no recipiente – e a mesma só apagava quando se fechava a boca da binga. Outro recurso do pessoal era não deixar nunca o fogo apagar-se no fogão à lenha. Se isso acontecia, alguém ia buscar um tição aceso no vizinho mais perto. A pessoa tinha que ir depressa e voltar correndo, se não o fogo apagava no trajeto. 

- A madeira cortada na lua minguante não dava caruncho. 

- Na noite de São João colocava-se a clara de ovo num copo de água. De manhã via-se ali a imagem do futuro da pessoa: caixão (queria dizer morte), navio (viagem), véu (noivado). Outro artifício: se se fincasse a faca na bananeira e tirasse de manhã, as mesmas imagens podiam ser vistas na lâmina e tinha as mesmas significações. 

- Queimar a lenha pelo pé dela queria dizer atraso de cem anos de vida. 

- Só o defunto passava na porteira, sem nela encostar a mão. 

- Café conosco queria dizer café com biscoito. 

- Esperto era quem conseguia enfiar água num espeto. 

- Quem estivesse de casamento marcado, não podia: deixar que lhe varresse os pés; pisar em rabo de gato; sentar-se em frente ao pé de uma mesa; passar sob um cabresto de animal amarrado; mirar-se no espelho à luz de uma vela. 

- Alecrim da beira d’água./ Ele seco cheira mais./ Moça que quer casar/ Não namora todo rapaz. 

(*) Anotações autorizadas e adaptadas dos originais do livro da História de Cláudio, de David de Carvalho.

PARÁFRASE DO SONETO DE ARVERS

Guardo um segredo e um mistério comigo: é este amor que a todo instante aflora. É o recalque que incha e pesa no coração, Pois mesmo quem o provoca, ignora-o. E conhecendo-a tanto, sou dela desconhecido. Sempre a seu lado na sede, sem ter o que beber. Será que vou conseguir levar adiante este fardo, Sem mesmo nada pedir do que tanto quero? Mesmo tendo Deus feito-a para mim, Alheia na doçura e terna na surdez, Ela adianta-se a meus tímidos passos, E avisada de outros cuidados, volta a dizer, Lendo meus versos tão copiados dela: “Que mulher será esta?”, sem nada entender.

NOSTALGIA

Homenagem às estrelas do cinema das décadas de 40 e 50 : Ava Gardner, Anne Francis, Alida Valli, Anouk Aimmé, Brigitte Bardot, Collen Gray, Catherine Deneuvre, Cláudia Cardinali, Claire Trevor, Doris Day, Dorothy Lamour, Debra Paget, Esther Willians, Eleanor Parker, Gene Tierney, Gina Lollobrigida, Grace Kelly, Ingrid Bergman, Ida Lupino, Jane Fonda, Janeth Leigh, Jean Arthur, Judy Garland, Jeanne Moureau, Lizabeth Scott, Liv Ulmann, Lana Turner, Loreta Young, Lesli Caron, Marilyn Monroe, Mala Power, Mary Murphy, Micheline Presle, Milene Demongeot, Olívia de Havilland, Píer Angeli, Paullete Goddard, Patrícia Neal, Rita Hayworth, Rossana Podestá, Ruth Roman, Ronda Flemming, Sofia Loren, Silvana Mangano, Simone Signoret, Tereza Wright, Wanda Hendrick. Homenagem extensiva às similares estrelas brasileiras do estrelato cotidiano da mesma época, anônimas. Para chegar perto da rosa em suas rosas viajei nos dedos, na língua e no sopro do saxofone no vocabulário do Aurélio nos étimos e tropos da filologia no trivio da gramática-retórica-dialética até fincar na terra um galho de roseira e saber que como ela as flores têm óvulos nos ovários o cálice de folhas verdes nos bordos do tálamo as pétalas dentro do cálice e as glândulas que elaboram suspiros e secreções e a saliva da boca e a insulina do sangue. O relevo do terreno na sombra da árvore está ali para eu deitar e olhar com os olhos fechados dentro de mim olhar e ver as filigranas dos gravetos secos e verdes os intervalos entre as coisas e as palavras da natureza nela e em mim: ela que parece viver com a rosa para a lua tão libidinosa (a rosa) e tão carinhosa (a lua). O desenho da beleza começa no ovário e no carpelo vai pelo pistilo afora esgalhando nos estames e pétalas até desabrochar na corola e na provisão de néctar (perfume e doçura) e nas cores da melhor vida melhor! Foi assim que conheci a rosa mulher e flor a formosa na pureza da sedução a boca musical ornamentada a filha caçula da família dicotiledônea o vitral da igreja, a agulha de marear a mostradeira dos rumos infinitos o amor agarradinho da trepadeira do jardim. Se eu viver muito tempo quem comigo conviver há de dizer que não me entendeu. Pudera! tampouco eu me entendi! Tanto andei em tantas peripécias para chegar ao rosto dos eflúvios e fluidos aos hormônios perfumados da rosa de Jericó a que podia ter muito amor sexual ali no íntimo apesar do estorvo de tantas abelhas nas idéias e nos corações a fazerem outro mel de outro amor. A rubra rosa dos cancioneiros medievais pontua cinco vezes o corpo sensual é assim que chegamos antes de chegar é assim que beijamos antes de comer são cinco as marcas da libido do desejo (os mesmos cinco desejos da paixão). É assim que chegamos perto da fotossíntese da clorofila cinco milhões de vezes a tocar no caule na floema no estoma no xilema nas anteras e nos feixes e tecidos vasculares nos cílios nos mamilos no clitóris na rosa na rosa é assim que chegamos agraciados de polens benfazejos.